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Divina Aloma fala sobre carreira, negritude trans e conta como é chegar linda aos 68 anos


Por Neto Lucon
Fotos: Alexandre Castelucio

Quando as cortinas se abrem, Divina Aloma surge com beleza, glamour e muito talento. São 68 anos de história, brilho no olhar e verdadeiras divas da música que a acompanham nas performances ao longo da carreira.

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No palco é Elza Soares, Diana Ross, Whitney Houston, Donna Summer, dentre tantas outras estrelas que, aliadas à performance, figurino e brilho pessoal, continuam vivendo, revivendo e aproximando do público por meio de Aloma.

A carreira da artista é marcada por incontáveis momentos de superação. Nasceu em Salvador, se radicou no Rio de Janeiro aos nove e por quatro anos viveu em situação de rua. Diz que seus professores foram os “mendigos” e que chegou a ser salva pela icônica Madame Satã (1900-1976).

Nos palcos, começou substituindo a vedete Lorena e logo Aloma brilhou, tornando-se uma das mais aplaudidas. Esteve em matéria do importantíssimo e extinto O Cruzeiro em 1972, foi musa de Di Cavalcanti (1897-1976), protagonizou strip-teases e venceu inúmeros concursos. Até hoje continua com tudo.

Neste domingo (19), Divina terá às 18h30 pela primeira vez um show especial sobre sua carreira. Trata-se do Aloma Para Sempre, dirigido por Watusi, que ocorrerá no Beco das Garrafas, na Rua Duvivier, 37, Copacabana, Rio de Janeiro. No espetáculo, Aloma vai contar detalhes de sua emocionante trajetória pessoal e artística. 

Ela conversou um pouco com o NLUCON.


- Como está sendo ter o primeiro especial sobre sua carreira?

Estou muito feliz com essa fase da minha carreira, pois estou finalmente chegando onde sempre sonhei. É um momento de muita glória e felicidade. A ideia do especial surgiu na casa de um amigo, quando estava falando sobre minha história. A Watusi e a Deyseh Luz disseram: “Você precisa fazer, você é uma história viva”. Mas demorei um pouco para aceitar, porque estava abalada com a depressão.

- O que terá no seu especial?

Eu falo da minha vida e falo dos meus números. Quanto aos números, farei Elza Soares, Diane Ross, Whitney Houston, talvez inclua Eliana Pittman. Todo o figurino é feito por mim, com todo luxo e cuidado. Estou muito feliz porque, para você ter uma ideia, lembro que frequentava muito o Beco das Garrafas (onde será realizado o especial) nos anos 50, que foi começou Elis Regina, Agnaldo Timóteo, vários artistas.

- Aos 68 anos, qual é o segredo para estar tão bem?

Em janeiro já faço 69, pode colocar. Sou autêntica, sincera, pé no chão, faço tudo o que quero. Não vou pela cabeça dos outros. Tenho personalidade. Eu adoro curtir meus perfumes, por exemplo. Uso até para dormir. Algumas pessoas falam: “mas para dormir”. Eu gosto de dormir sentindo o aroma, pronto. Também sou uma pessoa descansada, me alimento bem, curto a minha casa e só saio para curtir a noite se me interessar. Caso contrário, fico em casa. Eu sou boa de cama: durmo muito (risos). E é claro que tenho minha vaidade, tranquilidade e religiosidade. Tomo meu banho de erva, ascendo minha vela para o anjo da guarda me proteger e sempre peço proteção aos orixás. Eu não tenho medo de nada. O que tenho medo é da falsidade e da traição.

- Você é nostálgica?

Tenho orgulho do que eu vivi, mas não fico olhando para traz, olho para frente, pois a vida continua. 

- Você contou que chegou a enfrentar a depressão. Como saiu?

Se você tivesse me visto no ano passado, diria: essa mulher não é a Aloma. Estava muito feia, desidratada, com 58 quilos. Não queria nem estar mais nessa terra. Mas como sou de Deus fui para Salvador, fui passar o Bonfim e a Festa de Iemanjá. Andei 9km debaixo de um sol de 40 graus. Saí da igreja da Conceição e fui até o meu Pai Oxalá, no Bonfim, andando. Os meus amigos falavam: “vamos pedir um taxi”. Mas eu falava para eles me deixarem. Só pedia: “Se o senhor acha que eu devo continuar, mostra minhas forças”. Quando cheguei na igreja, peguei um maço de fita, segurei e chorei, chorei, chorei. Até não aguentar mais. Até meus amigos choraram juntos. Terminou tudo ali, foi um desabafo. Daí caí numa feijoada com farinha que você não imagina (risos).


- E como foram os outros dias?

Minha vida começou a revigorar, eu comecei a me tratar... Quando encontrei a doutora e as enfermeiras, que me ama, elas elogiaram: “Nossa, Aloma, como você é linda”. Elas diziam que, como me viram tão fraca, não perceberam como eu sou linda.

- Naquela nossa entrevista você contou que estava se despedindo de São Paulo, inclusive muito triste com o cenário artístico, e indo ao Rio de Janeiro. Melhorou?

Aqui tenho minha casa própria, não tenho o problema de aluguel que tinha. Como tenho a minha aposentadoria, não me falta o pão de cada dia. Quando eu quero fazer show, eu faço. As pessoas ligam me procurando, porque sabem que meu trabalho é limpo, que eu sou boa e que nunca vou ofender ninguém. Minha vida aqui é como de qualquer pessoa. Adoro assistir filmes em casa na TV a cabo, curto meus DVDs, procuro repaginar meus números e minhas roupas. E me preocupo comigo. O melhor da vida é ter paz de espírito.

- Neste mês fala-se sobre a consciência negra. Como você venceu o racismo ainda tão presente no Brasil?

O preconceito existe, todos sabem, mas eu faço de conta que não vejo. Já tentaram puxar diversas vezes meu tapete, mas eu adoro a minha negritude, adoro ser quem eu sou e me preocupo principalmente comigo. Então, penso que o problema são as pessoas que tem preconceito, não eu. Se fossem mais bem informadas, educadas, amadas e preocupadas com o outro, o preconceito não existiria. Eu continuo seguindo a minha vida, muito bem vivida e feliz. E eles? Será que são felizes? O que falta no mundo é o amor. Enquanto não existir o amor, o mundo acabou. Quando há amor, quem o vence? Nada.

- E a transfobia?

Vejo que muitos espetáculos só falam de putaria, usam palavras de baixo calão, que ninguém é obrigado a escutar. Vejo que a televisão sempre quer só mostrar o lado da prostituição. Então, isso contribui para a sociedade continuar sendo preconceituosa. Mas tem muita mudança ocorrendo por aí. Fui na faculdade de Belford Roxo e vi que havia três garotas trans e travestis fazendo faculdade de direito, havia duas escritoras, uma professora. É isso que deve acontecer: a nossa história, habilidade e educação devem vir primeiro que qualquer coisa. É isso que os jornalistas devem fazer.

- Tento fazer isso, Aloma.

Eu sei, mas não é isso que os donos querem. Você sabe como é... 

- Assim como o tema do seu especial, o que fica para sempre?

É o amor, é o carinho que a gente recebe e são as amizades que a gente faz. As pessoas sabem que eu sou a mesma pessoa e que nunca mudei.  Gosto muito da entrevista que você fez comigo (em 2013). Até hoje se você colocar bomba (leia e relembre aqui). Enfim, o meu alimento é o carinho, é a arte e é o amor.




SERVIÇOS:
DIA: 19/11/17 ÀS 18H30
Show: ALOMA PARA SEMPRE!
Direção e VOZ: Watusi
BECO DAS GARRAFAS – Rua Duvivier, 37 – Copacabana – RJ.
Projeto: Canções para a MELHOR idade.
Produção Executiva: Deyseh Lúcide
PREÇO ÚNICO: R$ 40,00 e LISTA AMIGA = R$ 30,00 ATÉ 17/11/17 na página:
https://www.facebook.com/BECO-DAS-Garrafas-Projeto-Can%C3%A7%C3%B5es-para-a-melhor-idade-447418908778179/?fref=ts

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