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Allóes Carvalho era músico, ativista trans e encantador; ele cometeu suicídio aos 23 anos


Por Neto Lucon

Allóes Carvalho era um jovem trans de 23 anos cheio de talento, sonhos e possibilidades. Era violonista, cantava e estava sempre preocupado em passar uma mensagem contra a transfobia. No dia 24 de dezembro, véspera de Natal, ele cometeu suicídio dentro do seu quarto em Cantagalo, Rio de Janeiro.

A morte de Allóes abalou familiares, amigos e a comunidade trans, que fez diversos posts nas redes sociais. Discursavam como Allóes era um homem incrível, apontavam para o discurso de quem não o respeitava em sua identidade de gênero e denunciava que a transfobia continua levando muitos jovens à depressão e ao suicídio.

Em recente conversa com o NLUCON, ele pediu para divulgar um texto em que falava sobre ter se revelado trans, iniciado a hormonioterapia neste ano e tirado um peso muito grande das costas. Ele também estava muito feliz que a mãe havia gravado um vídeo com ele, falando sobre acolhimento (ainda que não conseguisse tratá-lo no masculino) e mandando uma mensagem para os pais e mães aceitarem seus filhos trans.

“Muita gente não entende, e outros nem querem entender. Eu nunca gostei de brincar de boneca, nunca gostei de andar de saia, desde que me conheço como um ser humano eu não lembro de uma vez que me senti confortável com aquele cabelão. Isso me causava uma dor tão grande que eu perguntava o motivo de Deus ter me colocado aqui nesse mundo se ele me fez no corpo errado”, escreveu. Allóes refletiu e entendeu que isso tudo era uma experiência para provar que era forte.



Ele disse, todavia, que o sofrimento vinha por meio da sociedade, “eles nos matam também quando são transfóbicos”, mas ressaltou a disforia e o grande sofrimento de ter que “sair do armário duas vezes”, “para nossas famílias e ter que chegar na frente de um psicólogo e falar que nós estamos no corpo errado, que sentimos no corpo errado e falarem que isso é coisa da nossa cabeça”. Ele finalizou o texto dizendo: “A verdade é que ser quem realmente somos é um ato de coragem”.

No último post de Allóes nas redes sociais, antes de cometer suicídio, ele publicou um vídeo da franquia Velozes e Furiosos, em que o protagonista Paul Walker, que morreu em um acidente de carro antes do fim das gravações, recebe uma homenagem. O personagem de Vin Diesel é questionado se não iria se despedir de Brian O'Conn (Paul), mas ele frisa: “Nunca é um adeus”.

SUICÍDIO E POPULAÇÃO TRANS

A morte de Allóes não é um caso isolado, bem como não é a do estudante e ativista trans Nicholas Domingues, que cometeu suicídio em Juiz de Fora, Minas Gerais, ou da ativista travesti Kyara Barbosa, no Ceará, neste ano. O Brasil é o 8º país com maior índice de suicídio no mundo (OMS), sendo que a maioria dos casos ocorrem entre jovens de 15 a 29 anos.

A pesquisa “Os Homens Trans no Brasil: políticas públicas e a luta pela afirmação de suas identidades”, da Faculdade de psicologia Maurício de Nassau, informa que 66,4% dos homens trans já pensaram em suicídio. O alto índice também aparece no relatório “Transexualidades e Saúde Pública no “Brasil”, do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT e do Departamento de antropologia e Arqueologia, da Universidade Federal de Minas Gerais, informa que 85,7% dos homens trans já pensaram em suicídio ou tentaram cometer o ato.

Vale lembrar que especialistas não atribuem à transexualidade o suicídio, mas ao forte preconceito e pressões que essa população sofre. O debate sobre suicídio, contudo, ainda é tímido e marcado por muito tabu, sobretudo quando acompanhado da população trans. 

Allóes, Nichollas e Kyara

O médico Dráuzio Varella, em seminário sobre suicídio de pessoas trans na Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), em São Paulo, revelou no último ano, que há uma “ignorância total” acerca das identidades trans e que a sociedade acaba impulsionando essa não existência. “É como se a sociedade não quisesse que essas pessoas existissem, pois não pega bem”, declarou.

Drauzio ressaltou que não estamos acostumamos pensar na morte e não falar sobre esses assuntos, porque vivemos como se fôssemos eternos. Mas que o debate se faz necessário e é urgente, para que as dores da transfobia não precisam mais ser cessadas com a própria morte. #AllóesPresente.

Desejamos sinceros sentimentos aos familiares, amigos e parceiros de Allóes.


Abaixo, o vídeo que ele pediu para divulgarmos, para "ajudar muitas pessoas" a serem escolhidas por suas famílias. Obs: Lembrando aos pais que, embora possa existir um estranhamento inicial em tratar pelo nome social e a identidade de gênero, vale o esforço e o respeito:

Um comentário

Breno Santos disse...

eu so queria entender uma coisa, se a tranfobia por chamar ainda por ela e não por ele o matava , pq continuava a viver comigo , a vir conversa comigo em minha casa , pq?pq? a me chamar para tirar fotos com ela , pq ela continuava a vivenciar essas coisas comigo? queria entender...

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