Header Ads

"Me assumi travesti para a família no Natal" e outras histórias de pessoas LGBT na data

Alex Koren, Maite Schneider e Raphaella O Hara

Por Neto Lucon

O Natal - comemorado no dia 25 de dezembro - é uma festividade em que as pessoas passam tradicionalmente com os familiares. Porém, para quem é LGBT o ambiente familiar nem sempre é provido de acolhimento, aceitação e respeito.

Ao contrário, para muita gente é o primeiro lugar onde sofrem preconceito, recebem as perguntas mais indiscretas e tem que passar o maior apuro para sair ilesa e sem grandes traumas das conversas (que vão muito além do "pavê ou pra cumê"), até o ano seguinte.

É preciso ressaltar que muitas pessoas LGBT acabam sendo tiradas do seio familiar por serem LGBT - conforme já noticiamos em outros anos (confira aqui). Uma prova que nem sempre o espírito natalino, que evoca o nascimento de Jesus Cristo, se faz mais forte que o preconceito.

Todavia, há boas e inspiradoras exceções. 
Pensando nisso, o NLUCON convidou alguns leitores e leitoras da comunidade LGBT a falar sobre suas histórias marcantes, engraçadas ou emocionantes com a data festiva. 

Confira alguns relatos: 

"Quando eu era criança, trocava as etiquetas dos presentes da minha irmã e colocava meu nome. Só ganhava coisas de menininha e fazia a atriz que não sabia o que tinha acontecido. Coisas de Papai Noel (risos)" - Maite Schneider, atriz e depiladora.

"No último ano, acharam que eu era outra pessoa depois da hormonização. Eles não sabiam que sou homem trans e a maioria ainda não sabe. Todo mundo me tratou igual visita (risos). Isso fez muito bem para minha autoestima, já que eu estava finalmente vendo o quanto estava me aproximando de quem realmente sou, que é 'ELE" - Alex Koren, estudante de arquitetura e urbanismo

"Numa conversa de família, meu tio fala: 'Vinicius, quero sabem quem vai ser a tua próxima namorada!'. Eu respondo: 'Ou namorado, né? Ou quem sabe eu namore os dois? Ou nenhum dos dois? O importante é ser feliz, né, tio?'. Silêncio na mesa. De repente o assunto mudou para um mestrado que uma prima estava fazendo (risos)" - Vinicius B. Oliveira, estagiário de Direito.

"Quando eu me prostituía, passei várias vezes o Natal na pista, trabalhando. Certa noite, um senhor passou de carro e disse: 'Menina, vai passar o Natal com a sua família'. Eu respondi: 'Que família?'. Entrei no carro dele e fomos no apartamento. Chegando lá tinha uma mesa linda com ceia de Natal. Daí perguntei: 'Cadê sua família?'. Ele me respondeu: 'Minha filha mora nos EUA e me deu um bolo. Resumindo: comemos juntos, conversamos bastante e ainda ganhei um bom cachê de presente de Natal" - Karen Verônica - vendedora e restauradora de discos de vinil.

"Passar sozinho(a) faz parte da história de muitos de nós.... O pai ignora a sua existência e as pessoas não sabem a quem chamar... Ou então preferem chamar ele" - L. F., estudante de psicologia.

Karen Verônica e Léo Barbosa

"Num Natal passado, morava numa cidade em que também moravam muitas tias, tios e primos. Todos passavam sempre o Natal na casa da tia mais velha. Mas eu fui proibida de passar, porque estava no início da minha transição. Foi quando um amigo gay de infância, que não via há muitos anos, me mandou uma mensagem me desejando Feliz Natal. Contei o fato para ele e ele me convidou para passar na casa dele e da família dele. Foi um dos melhores Natais que já tive" - Raphaella O Hara, cigana, vegetariana, anarquista...

"Na véspera de Natal, estava com minha namorada na rua, quando uma moça tentava se esquivar de um cara que estava a agarrando pelo pescoço. Ela disse: "Me solta, me larga!". Peguei um cabo de enxada que estava ao meu lado lado e fui lá intimar o cara. "Aí mano, larga a mina!". Depois de uma discussão, desci uma paulada bem na dobra do joelho... O cara caiu no chão e depois correu. A mina estava chorando e muito assustada. Ela disse que não conhecia o cara. Peguei água com açúcar pra ela, perguntei se ela queria ir para delegacia... Então levei ela até perto da casa dela. Vai que aquele criminoso estivesse no caminho... Voltei pra casa e tive que ouvir xingamento da minha namorada abusiva, que não gostou de eu tê-la levado. Chato pra cacete isso. Mas fiz e sempre farei o que posso!" - Léo Barbosa, estudante de Direito.

"Lembro da primeira vez que me montei para o Natal, em 2013. Minha mãe me jogou literalmente um balde de água e falou que se eu saísse aquela noite, iria me expulsar de casa. Inesquecível. Não chorei, não soube como reagir, só pensei em trabalhar duro para ter meu lugar, pois não aguentaria mais aquilo. Sabia que jamais desistiria de ser quem eu sou" - Dominic Dominic, artista.

Dominic Dominic


"No Natal de 2015 eu me assumi travesti. Aconteceu por acaso e era o primeiro Natal que eu passava com a minha família desde que iniciei a transição, sendo que eu não morava com eles desde 2009. Já usava algumas roupas e acessórios "femininos" e minha mãe, ao perceber, ficou pedindo para não usar. Como estava bem debilitada na época, devido à pressão por lutar comigo mesma para me assumir, acabei me "assumindo" e dizendo que não era apenas um menino gay e que me sentia, sim, como uma mulher, mas uma mulher travesti. Depois de muita briga, minha mãe não quis mais que houvesse festa de Natal que ia ter na minha casa, também não participou de nenhuma festa de Natal da família.

Foi um processo muito difícil, minha mãe e meu pai entraram em depressão, principalmente por saberem que tinham uma filha travesti. Com o passar dos meses, a poeira foi abaixando e continuei minha transição. Então eles perceberam que aquilo estava acontecendo mesmo e que ia acontecer independente do que eles achavam ou quisessem. Até que em julho de 2016 eu me formei e eles foram participar da minha formatura, o que foi uma alegria enorme para mim, pois foi a primeira vez que já estava me apresentando como travesti e totalmente assumida também. Então foi a partir daí que a relação começou a melhorar.

O natal de 2016 já foi muito melhor e eu passei com eles no dia seguinte. Apesar de ter melhorado bastante e eles terem “aceitado” o que sou, ainda não respeitavam 100% meu gênero e nome. Mas atualmente minha mãe é a minha maior apoiadora e conseguiu virar o jogo. Na verdade ela sente orgulho de ter uma filha travesti. Infelizmente não vou passar o natal com eles neste ano, pois estou aqui no mestrado no Reino Unido. Enfim, ter me assumido na véspera do Natal foi um momento totalmente marcante. Foi essencial pra chegar ao momento atual! Afinal, perdi o medo de falar quem eu sou para todo mundo" - Lua Stabile, Mestranda em Estudos de Gênero das Relações Internacionais, na Universidade de Birmingham, Reino Unido.

Lua Stabile contou para a família que é travesti no Natal


"Eu me assumi pra família no Natal. Mandei um feliz Natal junto com um atura ou surta, bebê; pros familiares" - B. M.

"Ganhei 3 gravatas da minha tia. Ela não me vê como homem, mas pelo menos não tenta mais me empurrar coisas femininas pela goela. Isso foi em 2015", Carlos. S.

"Uma tia minha que não me via há anos , quando veio passar o natal conosco não sabia da minha transição e me deu de presente três cuecas. É pra morrer (risos)". Carla B. G.

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.