Header Ads

Conheça a Casa Florescer, que acolhe e transforma vidas de travestis e mulheres transexuais


Por Neto Lucon

Alberto Silva é o gestor cis da Casa Florescer - um espaço que acolhe desde março de 2016 a população de mulheres transexuais e travestis em situação de vulnerabilidade, no Bom Retiro, em São Paulo. Foi por meio dele que recebemos o convite para conhecer o trabalho e o espaço.

A Casa abriga e atende as demandas de 30 mulheres trans, que sofreram com a expulsão familiar, falta de oportunidades, preconceito, outras violações, além da falta de acolhimento em outros albergues. Com o trabalho da Casa, elas conseguem mudar suas vidas. Confira o relato da agente de saúde Tatiane de Campobello - leia aqui.

O espaço conta com um dormitório específico para pessoas com necessidades especiais (atualmente há duas cadeirantes), um dormitório para pessoas que estão inseridas no mercado formal (10), outro para quem estuda (10) e outro com seis vagas. Há também um refeitório, duas salas, lavanderia, banheiro e quadra de esportes.

Após conquistar esta população, Alberto conta que o trabalho envolve quatro esferas: saúde, documentação, estudos e mercado formal de trabalho - todos feitos com muitas atividades. Hoje, cerca de 50% já conseguiu se inserir no mercado de trabalho e muitas delas já deixaram a Casa para fazer a locação em novo imóvel. Ou seja, a oportunidade contribui para Florescer.

Assista a entrevista abaixo ou leia alguns trechos após o vídeo:



Por que é importante uma casa como a Florescer existir?

Eu, Beto, enquanto cidadão, acho que a aceitação deveria existir em todos os espaços. Mas a partir do momento que você tem a sua identidade velada e negada, fez necessário criar a Casa Florescer. Justamente para atender a demanda que era o sujeito oculto, dos direitos negados, de eu não poder ser quem eu sou. Então, a importância dessa casa é que eu posso estar aqui sendo gente, sendo igual a todo mundo, e não tenho nenhum tipo de preconceito.

- Como está sendo trabalhar com a população de travestis e mulheres transexuais em situação de vulnerabilidade social?

Inicialmente era complicado, porque era tudo muito novo e diferente para as meninas. A partir do momento em que elas compreenderam que aqui elas poderiam ser quem elas são de fato, sem nenhum tipo de rótulo, teve uma mudança. Afinal, tem uma que se define travesti, outra transexual, aí entra a questão de não-binária, binária. Então imagine tudo isso dentro da casa? A gente foi aprendendo a lidar, no sentido de trabalhar sem rótulo. É o diferente que é igual.

- Qual é o diálogo que vocês têm com elas? 

A gente fala para as meninas que elas são iguais a todo mundo e o que faz um diferencial muito grande é que elas se sentem acolhidas. Em muitos locais não existe esse acolhimento. Mas não é uma questão de pré-conceito velado, é uma questão de falta de informação. O que eu tenho trazer para elas nas rodas de conversa é que somos agentes transformadores o tempo todo. A gente pode mudar uma ideia, trazer uma consciência de que o diferente é igual.

- Quais são as esferas que vocês trabalham?

A gente faz um vínculo com quatro esferas, saúde, documentação, estudos e mercado de trabalho. O que a gente busca é oficina de artesanato, esporte, orientação para trabalho, roda de conversa sobre saúde, não só sobre DST, mas saúde como todo. Passeios externos, atividades internas e externas. A gente começa a fazer essa articulação: das meninas irem para os locais onde eram negados e a sociedade no geral também vir para o espaço e para os eventos que a gente executa.


- Algo muito bacana também é o espetáculo Divas Florescer, que várias se apresentam no palco e mostram a veia artística. Já temos frutos da casa?

Já, bastante. Hoje temos meninas que trabalham no Masp, que não estão mais na casa, no Tomie Ohtake, no HC, no Carrefor, no Bom Parto, como agente de saúde. Eu já tive uma média de 22 trabalhando. Daí você pensa: num universo de 30 você já ter 22 meninas inseridas no mercado de trabalho formal com carteira assinada e tendo a identidade de gênero respeitada é muito gratificante. As saídas qualificadas, que é como a pessoa sai e faz a locação do seu imóvel, hoje vem nos fazer visita.

- Quem mantém a casa?

É parceria da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social junto com a Coordenação Regional das Obras de Promoção Humana, que é uma organização social que atua há 40 anos na Zona Norte. Teve um edital e a gente acabou ganhando com muita surpresa. Mas foi muito legal porque na Audiência Pública havia umas 15 travestis de outro projeto que eu trabalhava que ajudou muito. Elas falaram sobre a importância do espaço, de elas não serem um nome civil, mas serem uma pessoa de fato. Isso deu um impacto muito grande na avaliação das pessoas que compunham a mesa.

- Como você disse, é uma pena que a gente ainda precisa de um espaço por falta de acolhimento em outros, mas que bom que ele exista e que faça toda essa transformação...

Até uma coisa que eu coloco para a equipe e que vem conhecer o espaço, é que o grande erro é rotular as pessoas. Porque quando você vê a pessoa na sua essência você faz uma transformação. E da transformação você traz uma oportunidade. E quando você acredita, é ipossível não florescer, né? Então tem que dar esse tom diferente aí.

- Qual é a mensagem que você gostaria de passar? 

Acreditar um pouco mais no próximo, ter um olhar mais humano, tirar um pouco do estere´tipo que travesti é muito ligada a questão da drogadição e da prostituição. É tudo um algo mais. São pessoas que precisam de oportunidade com dignidade, pois isso faz toda a diferença. Em termos de casa, o que eu busco em questão de atendimento é que isso seja ampliado, pois vejo muita meninas que estão muito vulneráveis e que precisam desse olhar um pouco mais solidário e humano dos outros.

- Além das 30 vagas que temos, há muito mais meninas que precisam do trabalho da Casa Florescer?

Muitas meninas. Se você anda pela Bela Vista, na Cracolândia, na Rua Mauá, você vai encontrar muitas meninas. Mas lógico que você entende que há outra situação, em questão de drogadição, e envolve outro tipo de tratamento.

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.