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João W. Nery fala sobre batalha contra o câncer e se fortalece com carinho recebido


Por Neto Lucon

Depois de muitos anos lutando pelo direito de ser e contra a transfobia, o escritor e militante trans João W Nery, de 67 anos, entrou há cerca de três meses numa batalha contra o câncer de pulmão. Em entrevista sincera ao NLUCON, ele afirmou que a quimioterapia o deixou fisicamente fragilizado, mas que ele está "moralmente bem" e recebendo muito carinho.

"Eu não estou nas melhores condições. Essa terceira quimio me arrasou, enjoou, estou muito fraco e fico quase o dia todo deitado", afirmou. "Fisicamente não tenho mais barba, tenho uma porcaria de bigode, mas super furado, falhado, branco. Estou abatido, mas vivo e com cara de homem".

A batalha inclui ainda uma quimioterapia no início de janeiro e a radioterapia no meio do mês. "Não sei o que vai restar de mim. Estou com quase 70 anos, não sou mais um garoto. E depois veio a radio, que é meio hard, vai queimando a pele, a traqueia e vou ter dificuldade para engolir. Mas estou me cuidando e me tratando dentro do possível".

Nesta quarta-feira (20), João saiu do calor intenso de Niterói e partiu rumo a Teresópolis, interior do Rio de Janeiro, para passar uns dias mais tranquilos na casa de uma familiar. Neste momento, ele recebe os cuidados da irmã e da esposa.

CARINHO DA TORCIDA DO FLAMENGO E DO FACE

Algo que tem colaborado para o enfrentamento do câncer é o apoio que recebe diariamente por meio das redes sociais. "É a torcida do Flamengo e do Face inteiro orando por mim. Recebo mensagens, homenagens e reconhecimento. É muito aconchegante, emocionante mesmo. Soube que um ambulatório trans colocará meu nome e que tem até uma meia dúzia de garotos que rasparam a cabeça por minha causa. É carinho de todos os lados".


O empresário Bernardo Gael Martins, de 24 anos, foi o primeiro a encabeçar a ideia de raspar a cabeça para apoiar João. Ele, que também tem uma tatuagem no braço com o nome do escritor, explica que o apoio surgiu porque João foi e continua sendo crucial e muito importante em sua trajetória.

"Deixei o livro dele, Viagem Solitária - História de um Transexual 30 anos Depois", no criado-mudo da minha mãe por alguns dias, até que ela resolveu ler. Então tudo começou a caminhar bem em minha vida. Antes disso foi difícil", conta. "Eu e o João temos uma ligação muito forte, de pai e filho. Estou feliz que ele tenha visto a homenagem".

João também deu nome a uma premiação da 3ª Conferência SSEX BBOX, com parceria da ONU, que ocorreu neste ano em São Paulo. Um dos homenageados foi o coordenador nacional do IBRAT, Lam Mattos, que disse: "Quero agradecer ao João Nery, pela coragem de ter sido o primeiro a colocar a cara no sol para que outros homens trans pudessem fazer o mesmo ou que tivessem orgulho de dizer que são homens trans ou transmasculinos".

VÍCIO DESDE OS 15

Aos 67, João declara em entrevista ao Extra que foi fumante desde os 15. Ele afirma que naquele momento a ansiedade e a discriminação por não se identificar com o gênero atribuído no nascimento eram altas. O cigarro, então, foi uma fuga e um prazeroso vício.

Foi o cigarro que o acompanhou em todas as barreiras, lutas e conquistas - como o fato de ser o primeiro homem trans a se operar no país, ter mudado a documentação na ilegalidade e perdido o diploma de psicólogo, escrito o livro autobiográfico, que mudou a vida de muitas pessoas. 
Desde que sofreu um infarto, diminuiu a quantidade de cigarros por dia. Agora, parou de vez.

"Foi um grande sacrifício, mas não quero me matar mais. Já chega. (O câncer de pulmão) não deveria ser uma grande surpresa. Afinal de contas, é uma consequência de quem fuma a vida inteira", declarou.


João ao lado da irmã (à esquerda) e da esposa / crédito Lucas Ávila e Gael Benítez

Ao receber a notícia que estava com câncer do médico, a surpresa o pegou. "Senti uma dor de barriga que até fui ao banheiro três vezes. Não foi fácil, mas quando você fica mais próximo da morte, isso te dá uma grande liberdade. A ideia do vamos aproveitar o dia de hoje fica muito forte".

CONTINUO TRABALHANDO

Quando anunciou publicamente o problema de saúde, João afirmou que se ausentaria da militância temporariamente e que não poderia mais se comprometer com palestras, atos de militância e entrevistas. Porém, durante a recuperação, ele afirma: "Continuo trabalhando no Face. São quase 5 mil homens trans, muitos deles precisando de ajuda".

Antes da segunda sessão de quimioterapia, ele também aceitou o convite dos fotógrafos Gael Benítez e Lucas Ávila para o projeto fotográfico Ser Desperto, que visa retratar vivências da transmasculinidade. Disse que teria que ser logo, pois perderia os pelos. E fez com que os fotógrafos saíssem e voltassem de Belo Horizonte rumo a Niterói no mesmo dia, 15 de novembro.

"Foi muito emocionante, conversamos sobre o projeto e ele se deixou fotografar de várias formas, umas como nunca antes, de cueca, por exemplo. Ele quis mostrar o corpo trans envelhecido, com as cicatrizes das cirurgias, disse que era uma contribuição para os meninos trans mais jovens, que não sabem os efeitos dos hormônios a longo prazo. Ele falou bastante sobre a vida e como essa era mais uma batalha que enfrentou", declarou Lucas.

Com Gael, homem trans de 22 anos, foi o encontro de duas gerações dividindo experiências. "Ter fotografado o João foi estar de frente do homem que abriu o caminho para que eu pudesse ser quem eu sou hoje. Ele se despiu para nós da maneira mais singela e bonita que alguém poderia ter feito. Abriu sua vida para que pudéssemos documentar sua imagem e seus sentimentos. Foi um dos momentos de maior emoção. João é um ser gigante de coração e espírito, e agora também, meu avô".


Gael Benítez, João W Nery e Lucas Ávila

A veia militante persiste mesmo numa simples conversa despretensiosa. Após esta entrevista, por exemplo, ao saber que este jornalista que voz escreve precisava de uma consulta com uma psicóloga em São Paulo, João tratou de selecionar alguns psicólogos pró-LGBT da cidade e encaminhou pelo Facebook. "Esses entendem de sexualidade e não são homofóbicos", pontuou, mostrando disposição para continuar na luta.

Nós agradecemos imensamente toda a contribuição, estamos na torcida para que mais esta batalha seja vencida e que outras histórias sejam escritas. 

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