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Kyara Barbosa dá adeus aos 23 anos; depressão, transfobia e suicídio ainda matam pessoas trans


Por Neto Lucon

Kyara Baborsa morreu nesta segunda-feira (04) aos 23 anos, na Morada Nova, Ceará. De acordo com amigos, ela enfrentava uma forte depressão, chegou a escrever algumas mensagens sobre a difícil vida de uma travesti brasileira e cometeu suicídio.

Amigos, familiares e conhecidos foram surpreendidos com a notícia da morte e escreveram diversas mensagens de luto. Kyara era uma pessoa extremamente doce, querida e lutava diaramente contra a transfobia.

Ela era militante dos direitos humanos e demonstrava muita habilidade com a escrita. Tanto que chegou a participar do cursinho Transpassando, destinado para a inclusão de travestis e pessoas trans na universidade, e conseguiu ingressar no curso de Letras.

Por diversas vezes indicou matérias ao NLUCON - sendo sempre muito querida, responsável e preocupada com a informação de qualidade a ser repassada para a sociedade. Nas postagens nas redes sociais, ela sempre compartilhava matérias sobre a população trans, denunciava a transfobia e mostrava como o preconceito a deixava abalada.

A morte de Kyara deixa uma lacuna muito grande na militância e a urgência de se falar sobre suicídio e depressão. Isso porque o suicídio é uma das causas mais frequentes dentre a população trans e travesti. E ele vem acompanhado de uma série de preconceitos e violações de diversos âmbitos da sociedade.

A ong National Gay and Lesbian Task Force aponta que 41% das pessoas trans já tentaram suicídio, contra 1,2% da população cisgênero. Uma pesquisa da Universidade de Columbia nos Estados informa que o índice de suicídio é 5 vezes mais frequente entre LGBT. No Brasil, o debate acontece de maneira tímida, mas se mostra cada vez mais urgente.

Em sua apresentação, ela usava uma frase de Clarice Lispector: "Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome". 
Em sua última postagem, escreveu: "Musa, deusa, mulher, cantora e bailarina". Que assim seja! #VidasTransImportam


Kyara Barbosa por Jades Chaves


DAS MUDANAS E IDENTIDADES
Por Kyara Barbosa

Segundo a medicina e a sociedade nasci 'menino', porém, nunca me identifiquei como tal. Aos 11 anos já me relacionava afetivamente com meninos, não me sentia numa relação homo. Aos 14 anos Kyara nasceu, de tudo que existia dentro da caixinha, o ser mulher era o que mais se aproximava do mim.

Mesmo me sentindo realizada por assumir uma identidade feminina e viver na minha realidade essa condição, sempre senti que faltava algo.

Agora, aos 23 anos - 9 anos depois de começar minha transição - sinto que ainda estou no começo de tudo; hoje não me identifico como mulher, e muito mesmo como homem. O que sinto e o sei é que minha identidade enquanto ser humano não é limitada ao binarismo de gênero, mais sim, as possibilidades.

Continua sendo uma mulher trans que por questões politicas se reivindica travesti, mais que no fundo, essas questões de gênero é uma mera ilusão social. Posso ser livre sem ter um gênero, na verdade, se quer preciso de um.

Sou um ser humano que pensa, que respira e sente e isso me basta.

Minha voz é grossa de mais para ser feminina, e caralho, amo minha voz. Assim como minha voz, minhas medidas não cabem dentro de um padrão e é isso que eu acho lindo: é não caber em padrões. Me sinto um ser humano ilimitado, que posso ter quantas identidades quiser, quantas sexualidades bem entender e nada disso interfere diretamente no que sou.

Tem coisas que não entendo e nem quero entender, mas só sabe o sabor da liberdade aquele já foi preso.

2 comentários

Obas - Organização Barreira Amigos Solidários disse...

Sua passagem foi meteórica, porém, cintilante como o arco íris.

Anônimo disse...

É lastimável ver mais uma vida promissora, sobretudo de uma conterrânea, ser perdida de maneira tão abrupta e triste. Sou de Morada- Nova Ceará, estive nessa cidade de onde sai em 1995 e retornei esse ano para retificar meu nome e sexo na certidão de nascimento. Como mulher trans, reconheço melhor que ninguém, o quão difícil é nossa luta.Por mais conquistas que tenhamos, as lutas são diárias para manter nossas conquistas. A ideação suicida faz parte dos nossos dias. No qual enfrentamos diariamente a nós mesmas, nossas limitações, medos, frustrações e, sobretudo, a indiferença dos que nos cercam. Lamento muito. Gostaria que tudo fosse diferente.

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