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"A Psicologia tem papel importante no enfrentamento da transfobia", diz Dalcira Ferrão


Por Neto Lucon

Durante a Assembleia das Políticas, da Administração e das Finanças, que ocorreu no domingo (17), em Brasília, foi aprovada uma resolução que estabelece normas de atuação para profissionais de Psicologia no atendimento à população travesti e trans. Dentre elas, que a travestilidade e a transexualidade não devem ser tradas como doença.

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A resolução diz que a pessoa trans deve ter reconhecida e respeitada em sua identidade de gênero. E que profissionais de Psicologia devem contribuir no combate a transfobia e que estão impedidos de fazer da profissão um instrumento para manter preconceitos, estigmas ou estereótipos.

Os conselheiros federais e regionais de Psicologia também vedaram a realização ou colaboração com eventos ou serviços que busquem terapias conversivas, reversivas, de readequação ou de reorientação de gênero das pessoas transexuais ou travestis. Algo que ainda hoje acontece muito e que, segundo especialistas, ferem os direitos e a saúde da população trans.

Dentre as presentes na Assembleia, estava Dalcira Ferrão - conselheira e presidenta do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais, militante LGBT e aliada cis da causa trans e travesti. Ela conversou com o NLUCON sobre a conquista e sobre como a Psicologia deve estar a serviço do bem-estar da pessoa trans, nunca pautada e aliada ao preconceito.

- Foi aprovada uma resolução que diz que a travestilidade e a transexualidade não podem ser tratadas como patologia. Na prática, o que esta resolução muda na vida do profissional de psicologia?

Apesar de já termos desde 2013 no CFP a nota técnica sobre o processo transexualizador, que já aponta orientações na perspectiva da despatologização das identidades travestis e trans, ainda faltava uma normativa mais robusta e efetiva. E resolução trans se aproxima muito da resolução 01/99, que já aponta esses parâmetros profissionais em relação às orientações sexuais.

- Qual é a importância dessa resolução na vida das pessoas trans e travestis que são pacientes?

É muito grande. A lógica patologizante traz graves implicações na vida de travestis e transexuais. Pretende-se ainda, a partir de nossa decisão, contribuir para o enfrentamento do debate da patologização de tais identidades ainda muito defendido pela Psiquiatria. Em tempos de tantos retrocessos e perda de direitos termos esse posicionamento creio que seja de suma importância. Faremos a apresentação da resolução trans formalmente para o movimento travesti e trans, possivelmente ainda em janeiro de 2018

- Foi tranquilo discutir essas questões envolvendo a população trans com outros psicólogos na Assembleia?

Sim, o Conselho Regional de Minas Gerais e os demais de todo o Brasil participam da Assembleia de Políticas, da Administração e das Finanças (APAF), espaço esse democrático e deliberativo da Psicologia para a nossa ciência e profissão. Não houve dificuldade em aprovar tal resolução, que foi apresentada por um dos grupos de trabalho temáticos responsáveis. Há o entendimento da importância da apropriação dessa discussão pela Psicologia e da necessidade de nos posicionamos. A resolução trans foi aprovada por unanimidade pelos 23 CRP's presentes e pelo CFP, com todas e todos de pé e emocionadas(os) com esse momento.



- Pelas imagens, pude ver que você estava com a bandeira trans durante a reunião. Como começou o seu trabalho com essa população?

Sim, trabalho no atendimento psicoterápico  da população LGBT há 10 anos, e em sua maioria atendo travestis, mulheres transexuais e homens trans. Venho militando pela causa em todos esses anos. Trabalhei durante 2 anos no Centro de Referência LGBT da Prefeitura de Belo Horizonte, onde pude me aproximar ainda mais da realidade da população de travestis e trans, principalmente em situação de rua. E agora estando como conselheira e presidenta do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais tenho buscado levar tais reflexões para o campo psi, de modo a pensar o papel da Psicologia e sua interface com os Direitos Humanos e cidadania da população LGBT.

- Ainda é comum que as famílias queiram fazer com que seus filhos e filhas trans passem por terapias para tentar mudar a identidade de gênero? O que é preciso dizer para essas pessoas?

É comum as famílias estarem bastante desinformadas a respeito de pauta travesti e trans e na tentativa de encontrar suas respostas apelam para diversas formas de tentar "impor" a cisnormatividade aos corpos, muitas vezes recorrendo à procedimentos que se misturam com preceitos religiosos fundamentalistas. Desta forma, não só a pessoa travesti ou trans pode se beneficiar do acompanhamento psicoterápico para auxiliar nesse processo de auto-aceitação, mas também as famílias para se orientarem e aprenderem a lidar com seus entes. Ano passado acompanhei o caso de uma travesti do Estado do Rio de Janeiro que foi internada involuntariamente pela mãe no intuito de reverter sua condição.

- O que pode provocar na vida de uma pessoa forçá-la ou incentivá-la a fazer essas terapias de reversão de identidade de gênero e orientação sexual? Em que podem prejudicar?

Não ser respeitada e aceita pela própria família pode ocasionar diversos fatores nas pessoas travestis e trans, como quadros depressivos, de ansiedade, de reclusão e fobia social, podendo chegar em casos extremos, como até mesmo tentativas de suicídio.

- Essa mudança de resolução não quer dizer que as pessoas trans não possam contar com ajuda de psicólogos, certo? Aliás, existe alguma questão que aparece quando o/a paciente é especificamente pessoa trans?

Não compreender as identidades travestis e trans não quer significa em hipótese alguma que a Psicologia não possa e deva contribuir para o atendimento e a assistência da saúde mental desta população. Muito pelo contrário. A Psicologia tem papel importante no enfrentamento da transfobia, na desconstrução de estereótipos e preconceitos, no fortalecimento da auto-estima desses sujeitos e na construção de estratégias para lidar com tais dificuldades. Compreender que os corpos travestis e trans não precisam se enquadrar a cisnormatividade compulsória, que também são detentores de direitos e com possibilidades de intervenção.

- No país que mais mata a população de travestis e transexuais, podemos dizer que muitas o sofrimento não está associado ao fato de alguém ser trans, mas pelo preconceito que ela ou ele sofre?

Sim, esta ainda é uma triste realidade que temos nos deparado. O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo e em sua maioria e maneira muito cruel e violenta, exterminando características que demonstram que corpos também podem se expressar para além do binarismo de gênero. Mesmo nos casos de suicídios o que faz adoecer não é a condição em si dessas pessoas, mas sim toda a transfobia que sofrem cotidianamente.



- O que ainda hoje as pessoas precisam saber sobre as travestis, mulheres transexuais e homens trans?

A sociedade precisa entender que são pessoas como todas as outras, que devem ter o respeito à sua identidade de maneira auto-denominada, que pagam seus impostos, trabalham, namoram e precisam ter seus direitos garantidos como todos cidadãos. Respeitar o direto à vida, de ir e vir, da dignidade humana e o direito ao nome, são alguns dos desafios enfrentados pela população travesti e trans.

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