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Leo Moreira Sá volta com peça Lou&Leo e diz: “Artistas trans precisam estourar a bolha”


Por Neto Lucon

Leo Moreira Sá encena nesta sexta-feira (26), às 21h, o espetáculo Lou &Leo no Galpão Casa 1, em São Paulo, na programação da Semana da Visibilidade Trans. O espetáculo, que foi sucesso em 2013, volta em cartaz contando a história autobiográfica do ator, que é homem trans e viveu diversas violações e superações ao longo da trajetória. 

O espetáculo documentário e performático é dirigido por Nelson Baskerville e retoma com diversos integrantes do elenco original, bem como a atriz Beatriz Aquino, que interpreta a namorada travesti Gabriela, e o ator Tom Garcia.

“Voltar com a peça é retomar um momento muito significativo. Estamos com várias pessoas da primeira geração. A Beatriz, por exemplo, é um pedaço da história, pois fez parte desde o processo criativo. Então, é o resgate de uma energia que se desenvolveu e que hoje pode se tornar algo incrível”, declarou o ator, ressaltando que está fechando parcerias para que a peça corra outros estados. 

Para quem ainda não assistiu, a obra mostra muito mais que a história da transição de gênero de um homem trans. Nela, Leo está de perto aberto, revisitando as cicatrizes metafóricas e reais, revelando sabores e dissabores desde a infância. Aborda a identificação com o gênero masculino que se esbarra na imposição de vestir roupas ditas femininas pela mãe. O amor por uma travesti que esbarra nos preconceitos sociais. A entrada em uma banda de punk rock feminista, que o levou ao sucesso, e uso excessivo de cocaína que o levou ao envolvimento com o comércio de drogas. 

Há inclusive várias denúncias sobre abuso, o sistema carcerário e a revelação do que acontece após sair do presídio, munido apenas de uma sacola de roupas.

“Depois de chorar e tocar nas feridas nas primeira temporadas, passei definitivamente a ver o personagem Lou e Leo como um personagem mesmo. Sou eu, mas é um personagem. E lá estão representadas várias pessoas, não só pessoas trans, Lembro de um casal de cerca de 60 anos que vieram me abraçar com os olhos cheios de lágrimas. Certamente estavam se referindo a um filho ou neto trans. É um ativismo, mas um ativismo com arte”, conta.



Na Casa 1, o espetáculo tem entrada franca e é aberto a todos e todas, sendo necessário a chegada 30 minutos antes para a participação, sujeita à lotação do espaço. O Galpão Casa 1 está localizado na Rua Adoniran Barbosa, 151, Bela Vista.

PRECISAMOS ESTOURAR A BOLHA

Leo afirma que tem galgado boas oportunidades desde que iniciou na carreira de ator, há oito anos. Estrelou a série Psi!, da HBO, Pacto de Sangue, do canal Space, os curtas Raul e Precárias e Resistências. Também esteve nas peças Hipóteses para o Amor e A Verdade e Cabaret Stravaganza, dos Satyros – que lhe rendeu o Prêmio Shell.

Contudo, ele afirma que ainda há muito resistência e preconceito para “estourar a bolha do universo alternativo” e ter visibilidade maior. Ele afirma que se inscreveu em diversos editais, mas que não dão oportunidade. Em 2012, ganhou o PROAC LGBT e produziu a peça. Mas quando venceu o PROAC ICMS em 2015, nenhuma empresa quis apoiar o espetáculo. Ele também aponta que o “Trans Fake” – prática que sempre preterem artistas cis aos artistas trans, mesmo quando a personagem é trans – ainda é regra na grande mídia.

“Fui um dos primeiros a ser contatado para fornecer o material de pesquisa para a novela da Globo. Dei parte do depoimento, depois falei que, se houver um personagem com meu perfil, que seria maravilhoso poder interpretar. Cheguei a enviar um e-mail para a Gloria (Perez) falando: ‘preencha de verdade a sua obra colocando atores e atrizes trans’. Mas ela não fez e já sabia que não faria. A estrutura do transfake é essa massa hétera, branca. Então, após as críticas, vai a (Maria Clara) Spinelli para 'representar' entre aspas só para que ‘ninguém meta o pau’”.

Sobre a atuação de Carol Duarte, que viveu o homem trans Ivan na novela, ele afirma: “Carol é uma atriz maravilhosa e fomos alunos e colegas da SP Escola (de Teatro). Ela fazia o curso de 'humor' e eu de 'iluminação'. Ela me ligou quando foi chamada, eu dei algumas dicas: ‘Não deixe que esse personagem seja uma caricatura de nós’, “faça o seu melhor, mas se você tiver condições, procure abrir espaço para que as pessoas trans participem também’. Agora, ela é uma atriz, não tem obrigação de militar. Ela fez um bom trabalho, mas não representou”.

NOVAS PERSPECTIVAS

Nos últimos meses, Leo está mais confiante no processo de mudança e conquista do espaço de pessoas trans nas artes. Ele diz que a existência do Coletivo T, as reivindicações de artistas trans em Belo Horizonte contra o transfake e o surgimento de novos artistas trans conscientes tem movimentado a discussão e aberto o espaço.

“Nós lutamos por um ideal, mas a nossa luta não é potente porque não temos espaço, não nos abrem espaço. Então nós vamos conquistar. Hoje, fico feliz que haja o Caio Jade, o Bernardo de Assis, o pessoal do Satyros incluindo atrizes e atores trans. E tenho orgulho de ser um dos pioneiros a lutar por essa representatividade”.

Leo afirma que tem dois longas para o segundo semestre deste ano. E que está próximo de fechar parcerias para que a peça Lou & Leo possa finalmente rodar o Brasil. Estamos torcendo!

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