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"Chega de desconstruir, é hora de colocar em prática", diz Erika Hilton em mesa sobre Identidades Trans e Negritude


Por Neto Lucon
Fotos; Bernardo Enoch

“É inimaginável as opressões que um corpo trans e negro sofre ao transitar pelas ruas”, disse Erika Hilton nessa terça-feira (23), na Casa 1, em São Paulo. Ao lado do militante homem trans João Henrique Machado, ela discorreu sobre o racismo e a transfobia na mesa “Identidades Trans e Negritude”, da “Semana da Visibilidade Trans”.

Segundo Érika, falar sobre as vivências trans e negras é falar sobre diversos preconceitos e machismos, sobretudo no contexto histórico brasileiro. “Somos o país que mais mata travestis e o último que aboliu os povos negros”, definiu. “E ainda que não legitimem nossa identidade, somos massacradas como as mulheres cis são, porque nossa expressão é feminina”, declarou.

Ela comentou sobre sua trajetória, disse que chegou a ir para as ruas aos 14 anos devido ao preconceito à sua identidade de gênero e que passou pela prostituição – “atividade que se equipara a uma médica, a uma dona de casa”, pontuou. Disse que sua história não é apenas de violações, mas de superação. “Mas não por meio da meritocracia. É uma superação por resistência”, frisa.

Vale dizer que Erika é militante transvestigeneres (entenda mais abaixo), do movimento negro, putafeminista e estudante de Gerontologia da Universidade Federal de São Carlos. Também foi a primeira travesti a ser candidata a vereadora de Itu, município de São Paulo.





HOMEM TRANS NEGRO

Estudante de audiovisual, João disse que passou anos em conflito sendo lido como mulher até que se reconheceu homem trans. Mas admite que após passar pela hormonioterapia, passou a viver um preconceito diferente: o de ser lido enquanto homem negro, cujos preconceitos permeiam ao de que é uma ameaça.

“As pessoas atravessam a rua, o segurança passou a me perseguir, as pessoas seguram a bolsa mais firme quando passam do meu lado. Isso mudou”, declarou ele, lembrando que desde pequeno as violências racistas existiram. “Na escola, diziam para não ficar no sol porque ficaria negro. Eu olhava para a minha pele e pensava: eu sou negro”.

Dentre outros exemplos de racismos e transfobia que vivencia no dia a dia, ele chegou a revelar um episódio em que estava em um cartório de São Paulo em 2017 para reconhecer firma e o responsável se negou a atendê-lo, dizendo que ali era cartório “puro sangue”. Atualmente, corre na Justiça um processo contra a repartição.

VIVÊNCIAS SINGULARIZADAS

O militante declarou que é muito difícil se amar quando a representatividade é baixíssima na imprensa – tanto de personagens negros em papeis de relevância em novelas e em capas de revistas, quanto da inexistência de homens trans negros que são visibilizados pela mídia. “Fica difícil você se amar quando você não se vê”, pontuou.




Erika ressaltou que quando a mídia inclui apenas uma mulher negra dentro de um contexto com várias mulheres brancas, ela está reduzindo as possibilidades de ser uma mulher negra. “Eles colocam uma branca loira, uma branca ruiva, uma branca alta, uma branca morena... E daí coloca uma negra. Mas quando você coloca uma, você está singularizando essa vivência”, diz.

Ela afirma que não conta mais com o movimento LGBT na luta contra essas opressões, pois se trata de um movimento que não está atento às demandas trans. Erika pontuou que desde os anos 90 a homossexualidade foi despatologizada pela Organização Mundial de Saúde, mas que as pessoas trans continuam no CID até hoje sem qualquer mobilização. Mas que foi só um juiz permitir uma terapia de "conversão da homossexualidade" no último ano que houve grande mobilização.

“A Avenida Paulista foi tomada por militantes LGBT porque cogitou-se patologizar novamente a homossexualidade. Mas quando 15 travestis foram presas sem terem cometido crime aqui em São Paulo, ninguém se mobilizou. Então esse movimento que não se movimenta não me representa”, disse.

TRANSVESTIGENERES

Logo no começo do bate-papo, a militante comentou que passou a adotar a palavra “transvestigeneres”, bem como Indianara Siqueira, para se referir as pessoas trans e travestis.

De acordo com ela, as palavras "travesti" e "transexual" foram dadas por pessoas cisgêneras dentro de categorias e concepções determinadas também pelas pessoas cis. A palavra transexual, por exemplo, foi dada pela equipe médica com o viés da patologia. E que o objetivo de "transvestigeneres" é de obter outros significados acerca das identidades trans e abarcar outras vivências, bem como das pessoas não-binárias, gênero neutro, intersexo.





Erika também refletiu que até mesmo a concepção de "corpo de homem" e "corpo de mulher" não foi dada de forma intrínseca, espontânea ou natural. Mas que foi uma pessoa (cis) que definiu que tais corpos seriam divididos de determinada maneira e em razão dos genitais. “Poderiam diferenciar homens e mulher por meio do tamanho dos lábios, por exemplo, mas escolheram o genital”.

Pontuou ainda que toda a concepção de gênero – mulheres usam unha pintada, depilam as pernas, não falam palavrão, não gemem alto – foram dadas tão somente a partir do genital, sem que houvesse sido discutida a possibilidade de transições. A militante afirmou, contudo, que não dá mais para focar apenas na desconstrução dessas ideias, mas na construção de novas perspectivas e ações.

“Acabou o tempo de ficar desconstruindo, desconstruindo. Agora é a hora de colocar em prática”, finalizou.

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