Header Ads

“Estamos usando réguas cisgêneras para medir nossos corpos trans?”, questiona Magô Tonhon em Mesa

Neon Cunha e Magô Tonhon

Por Neto Lucon
Fotos: Bernardo Enoch

As “vivências trans” foram o tema do debate no último sábado (27) da mesa da Semana da Visibilidade Trans, na Casa 1, em São Paulo. E para falar sobre concepções, críticas, reflexões e possibilidades estiveram presentes a taróloga, arquiteta mestranda em estudos culturais na USP, Magô Tonhon e a publicitária, diretora de arte e militante independente Neon Cunha.

Logo na abertura do debate, Neon revelou que tem se refutado em se reconhecer como “mulher transexual” ou “travesti”, identidades utilizadas pelo movimento organizado nas últimas décadas, para não invisibilizar outras identidades - bem como não-binários, queers e intersexos. A designer se apresenta enquanto “mulher, negra, ameríndia e transgênera” e diz preferir a palavra “transgênera” e a sigla “LGBTQI+”.

“Conheço as identidades travesti e transexual desde os 12 anos e via desde lá o quanto elas não cabiam em mim, o quanto tinha que ser codificada para estar em uma dessas condições. Por que tenho que ter um código de existência dentro de um código de sociedade? Sobretudo se esse código me dá estigma? Eu fico triste que a gente permaneça nessa condição de só poder ser assim ou assado. Eu esperava que em 2018 a gente pudesse ampliar o olhar para essa existência a partir da autodeclaração de quem eu sou. Tenho gostado da sigla LGBTQI+ para entender que o futuro está aí e que podermos trazer outras vivências e outras possibilidades”, diz.

Magô, que se define mulher trans, defende que não quer “novas embalagens para antigos interesses”, mas diz que criticar a categorização é dizer que há uma delimitação que pode excluir. “Criticar a categorização é dizer: 'Epa, estamos sendo assimiladas ou assimilades ao ponto de delimitarmos um círculo no chão e definirmos quem vai ficar dentro dele? É o tribunal da inquisição? Estamos utilizando réguas cisgêneras para medir os nossos corpos trans e corpos intersexos?'”, questionou. Ela citou Jota Mombaça, dizendo que há uma ideia de nós trans universal, mas que há várias singularidades. “É sempre um ‘nós’, um ‘nós’, mas o nó do nós não se fecha, porque há muitos nós que ainda estão abertos desse nós pronome”.

Neon aponta que uma das violências nessas duas divisões é o protocolo transexualizador, utilizado pelo Sistema Único de Saúde. “Para quem não sabe, o protocolo vai dizer quem é travesti e quem é a transexual. O protocolo vai falar que a travesti é aquela que não quer a cirurgia e a transexual é aquela que quer a cirurgia. Não está explícito, mas está ali. É impossível que as pessoas cis tenham decidido sozinhas aquele protocolo, então quero saber quem foram as pessoas trans que ajudaram nesta elaboração?”. Neon aponta a perpetuação do estereótipo que carregas estigmas ao analisar o sistema carcerário, onde 1.048 se definem travestis e 88 pessoas transexuais ou transgêneros, e que apenas a minoria acaba sendo requerido o uso de hormônio e nome social.

Magô  lembrou que quando participou de uma mesa ao lado de pessoas cis, especializadas em trans, essas pessoas definiram quem são as travestis e quem são as transexuais. “Envergonhada, uma errou o meu nome e ainda pediu desculpas pela definição. Mas o pedido de desculpas não deveria ser para mim, porque não vou ser eu que vou dizer qual é o comprometimento ético de ninguém, quando a decisão deveria ser: ‘Devo ou não devo?’”.



O ANÚNCIO DA MORTE

Dentre outras reflexões, Magô apontou que as mortes da população trans anunciadas constantemente - seja nas notícias envolvendo os assassinatos, nas listas que quantificam esses assassinatos, quanto nos discursos – acabam tornado um lugar e um destino para essa população. “Que tipo de anúncio estamos pressupondo dessa denúncia? Até que ponto não estamos apenas reiterando o lugar da morte e do destino que nos dão?”.

A arquiteta frisa que é importante contabilizar, sim, as mortes, mas que elas não devem ser utilizadas para decidir o status eterno de vítima e pesar para a população trans. “Não podemos utilizar dessas vidas ceifadas para desenhar um cenário para toda a população, sempre com um pesar. É a mesma ideia para políticas voltadas para o HIV. E sempre com cuidado, com infelicidade, com olhar cristão que te hierarquiza e daí vem a noção de tolerância. Não estou dizendo que não somos vitimadas, mas que esse lugar de vítima nos restringe, ele nos tira a elaboração de saída, o poder da decisão, da fala, de ser encarada como igual. Isso precisa ser pensado e problematizado. Qual ética atravessa nesse aspecto?”.

Magô afirma que em muitos eventos de militância é possível ver a figura do estado representada por meio de seus agentes políticos. “É um estado cada vez mais omisso que se aproxima desse flerte. Aparece uma pessoa da Secretaria de Direitos Humanos, um senador representando... Mas cadê as nossas presenças nessas casas? E mais: o que pode ser feito com nossas caras no sol, desse sol árido, além de angariar voto para os partidos? Qual é o comprometimento do estado como um dos agentes de quase cidadania às migalhas? É o nome social?”, questionou.

Neon conta que não consegue, por exemplo, comemorar o direito a retificação do prenome e gênero da documentação, realizado em 2017 sem a necessidade de laudo. “Quando fui fazer o documento RG, o atendente diz: ‘você conseguiu, parabéns’. Mas não tem parabéns, eu paguei, eu penei para chegar até aqui. Eu não consigo comemorar o direito a retificação. Pois ela é ofensiva. É alguém que autorizou a minha existência, como se ela não fosse legítima. Ela é cedida. As pessoas cis não vão passar por isso”. Vale lembrar que para retificar a documentação é preciso entrar com uma ação judicial, em que muitas vezes laudos são pedidos e em que um juiz decide se alguém pode ou não fazer a alteração.

REFERÊNCIA

Para o Dia da Visibilidade Trans, Neon publicou uma foto de Roberta Gambine, mais conhecida como Roberta Close. “Neste período, ela é um grande marco. Ela dizia que era apenas mulher, mas ela não poderia ser mulher somente. Ela queria viver sem grandes rótulos, mas ela não poderia existir em sua plenitude. Diziam: ‘A mulher mais bonita do mundo é homem’. Então sempre tentavam recuperar isso dela, dizendo que a originem dela é outra”, afirmou.

E é pensando em Roberta Close que Neon diz que não consegue comemorar as capas da Lea T e Valentina Sampaio na Vogue. “Todo mundo quer que eu celebre, mas vocês estão atrasados. Esqueceram que a Roberta Close, ainda que não tenha sido capa de moda, foi capa das mais impossíveis. Imagina ser capa da Playboy lá nos anos 80? Se eu paro para olhar de 82 para 2018, a única coisa diferente é que estamos lutando por espaço, mas que há poucas querendo romper com esses espaços”.

A designer também criticou a capa de Laverne Cox na Cosmopolitan. “Foi para a África do Sul. E veja bem, escolheram uma capa de uma mulher com condição trans totalmente photoshopada para higienizar. Não sei por qual motivo a Laverne não questionou isso”.



Neon disse que um dos melhores vídeos que assistiu de pessoas trans, “com várias aspas”, foi de Toinha, que faz dendê. “Ela não tem hormonização, não tem cirurgia. Ela sobe na árvore, derruba o coco, bate o dendê, veste calça jeans, camiseta branca e lenço na cabeça. Ela narra que o maior prazer é fazer dendê. Depois ela aparece vendendo aparamentada de baiana e só é tratada por Toinha. Então, como eu digo que essa mulher não é mulher porque ela não é o imaginário publicitário de mulher? E algo incrível é que ela não tem traço de tristeza. Porque parece que para ter o direito ao estigma é de ter dor. Mas e se eu não quiser mais dor? Nenhuma dor?”.

Ela afirma ainda que tem pedido para que a PL 5002/2013, a Lei de Identidade de Gênero deixe de ser chamada João W Nery – referente ao homem trans que lutou por sua identidade ao longo da história e é uma referência viva às diversas gerações – e passe a ser chamada Dandara dos Santos – em referência à travesti que foi assassinada no último ano no Ceará, cujo caso tornou-se nacionalmente conhecido após um vídeo com as agressões cair na rede.

“É impossível que a gente tenha assistido a execução de uma mulher trans e não se mobilize que a lei tenha esse nome. É impossível que o João Nery não tenha visto e não tenha pedido para mudar o nome. Essa mulher representa muito no Brasil: não branca, nordestina, morre no mesmo mês que a Dandara, símbolo de resistência da mulher negra, na Vila de Palmares”, afirmou.

Neon também criticou à PL que foi criada no Ceará para que a LGBTfobia seja criminalizada com o nome de Dandara. Para ela, a lei reduz a violência de pessoas trans a uma condição de homofobia (ódio às pessoas que se relacionam com outras do mesmo sexo/gênero). E que o nome para a lei que criminaliza a homofobia deveria referenciar Luana Barbosa, mulher negra, lésbica e periférica, que foi agredida e assassinada pela PM em 2016. “A população LGBT não fala dessa mulher”. 


A designer frisa que sua luta é para o conceito de liberdade. “Como a gente consegue ser livre, como a gente consegue romper com o processo histórico para deixar de ser subalterno de alguém? O Freud falava da histeria da mulher em relação ao falo. Mas qual é o problema de Freud com a mulher que nasce com o falo? É inacreditável não pensar nisso quando a gente lembra da Grécia e vê no Museu do Louvre uma das estátuas mais bonitas: a de uma pessoa hermafrodita, com ereção e erguendo a saia”, finaliza. 


Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.