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“Pensar sobre Transfake é pensar sobre empregabilidade trans” defende ator Caio Jade


Por Neto Lucon
Fotos: Bernardo Enoch


O ator Caio Jade e as atrizes Renata Carvalho e Wallace Ruy, que fazem parte do Coletivo T e do Monart (Movimento Nacional de Artistas Trans) participaram na quinta-feira (25), às 16h, da mesa sobre “Transfake”, que faz parte da Semana da Visibilidade Trans, na Casa 1, em São Paulo.

Ele e elas, que são artistas trans e travesti, falaram sobre a prática de artistas cisgêneros (que não são trans) em representar papeis de pessoas trans e travestis, enquanto artistas trans e travestis não conseguem a oportunidade de representar nenhum papel. E também sobre representatividade trans.

Renata Carvalho declarou que o motivo de não haver artistas trans em grandes obras, ainda que o personagem seja trans, é porque "estamos numa sociedade corporificada, onde o corpo trans é abjeto". “Acham que nossa identidade não é humana, aparecem com discursos religiosos e conservadores muito fortes. E quando a gente fala das artes, a gente fala do micro para entender o macro. É entender que a arte faz parte da sociedade e que dentro da arte há uma prática que contribui para a nossa exclusão. Ela não comporta os nossos corpos trans”.

A artista diz que apenas as histórias das pessoas trans, que são tristíssimas, interessam, mas quando as pessoas trans as são artistas o interesse desaparece. “É curioso porque ainda que as personagens trans sejam cheias de talento, nós, atrizes e atores trans, nunca temos talento suficiente para interpretá-los”.

Wallace faz um paralelo com as exposições de arte: “O questionamento que vi em uma exposição era por qual motivo apenas 15% das mulheres estavam expondo os seus trabalhos nos museus, enquanto 85% das exposições estão expondo o corpo das mulheres nuas. Me questionei: quantos papeis de pessoas trans tem sido representadas e quantas pessoas trans estão representando? E nem estou falando de autorepresentar, estou falando representando qualquer personagem. A gente vai cair nessa mesma questão. Há um problema e a gente precisa encará-lo”.

Renata e Wallace (foto: Bernardo Enoch)

Caio responde a um questionamento constante “o ator pode interpretar qualquer papel”. E provoca: “Mas quem é esse ator? Culturalmente, é o homem, branco, magro, cisgênero, não deficiente, etc, etc. É aquele que produz as marcas nos corpos, mas não se marca. Então na história o homem cisgênero interpretava os papeis das mulheres cis, quando elas não podiam interpretar. As pessoas brancas interpretavam pessoas negras, quando as pessoas negras não podiam. E as pessoas cisgêneras que interpretam os personagens trans e travestis, sendo que não podemos interpretar nenhum papel. Existe uma estrutura de privilégio e poder, que coloca em alguns poucos a possibilidade de existir e fazer o que bem entender, enquanto outros são usados como estereótipos para que outras pessoas lucrem. É sobre essas estruturas que falamos quando falamos sobre representatividade trans”.

PORTAS FECHADAS

Caio afirmou que chegou a desenvolver outros trabalhos antes de viver apenas da sua arte performática. Ele diz que devido aos trabalhos esporádicos tem sido chamado e ganhado pouco. E ressaltou que a luta por representatividade é uma luta por empregabilidade trans, uma vez que há uma grande quantidade de artistas trans e travestis que não conseguem trabalhar.

“A grande importância desse manifesto é que para haja a nossa presença (de artistas trans e travestis) dentro dos espaços de trabalho e emprego. É uma luta por empregabilidade. Queremos ser reconhecidos pelos nossos trabalhos e queremos receber por ele. As pessoas trans e travestis precisam ter oportunidade, precisam ser vistas e precisam receber pelo que fazem”, pontuou.

Renata declarou que artistas trans devem ficar provando e comprovando que tem talento o tempo todo, diferente das pessoas cis. Ela exemplifica que assim que assim que disse ao mundo que é uma travesti perdeu papeis, teve que se profissionalizar enquanto diretora e ainda assim amargou escassas oportunidades. Ela conta que só quando é premiada é que acaba sendo reconhecida enquanto atriz pelos demais colegas de profissão.

“Já perdi papeis porque não ‘era trans o suficiente’, já perdi dois personagens de travestis porque eu tinha peito de verdade, mas nunca me chamam para uma mulher cis porque ‘não tenho energia feminina’, porque não ‘tenho voz’. Sempre encontra uma desculpa para não encaixar”, afirmou, ressaltando que para escalar artistas cis para representar trans há sempre recursos encontrados e alternativas justificadas.


Wallace disse que atualmente atua no Teatro Oficina, chamado por ela um teatro de resistência, e que mais recentemente tem conseguido alguns espaços na televisão. “Mas isso é resultado desses levantes e dessas discussões onde nossos corpos marginalizados e abjetos tem reivindicado esses espaços. E não só enquanto atriz, o levante é para pessoas trans que estão nas artes plásticas, artes visuais, artes cênicas. É importante ter representatividade nesses espaços e mostrar que somos capacitadas para ocupá-los”.

FALTA DE SENSIBILIZAÇÃO

Renata comentou que quando artistas cis que fazem transfake são questionados, não há qualquer tipo de debate. “Eles não nos olham, eles viram as costas, saem, e são escoltados pela polícia. Acham que a gente vai bater neles”, diz. Ela frisa que as críticas não são apenas para atrizes e atores cis, mas para toda a estrutura. “Nós questionamos a gramática, questionamos a patologização da nossa identidade, questionamos a literatura”, pontuou.

Wallace afirma que na Semana da Visibilidade Trans é preciso exercitar a escuta. “Temos que ter o dia da Escutabilidade trans, porque as pessoas nos veem, mas não nos escutam”, pontuou.

Acusada de tentar censurar peças com transfake, Renata lembra que foi ela quem vivenciou a censura (a peça O Evangelho Segundo Jesus, interpretada por Renata, foi censurada em Jundiaí e em Salvador no último ano. O motivo: uma atriz travesti interpreta Jesus numa peça que fala de amor, respeito e acolhimento). “Nem tempos poder para censurar ninguém. Eu é que fui censurada, que estou sem trabalhar há dois meses. Estamos apenas questionando. E isso me faz pensar que lugar é esse que essa cisgeneridade chegou que não pode ser questionada? Que patamar artístico é esse que não pode ser questionado?”.


Ela propõe, contudo, que artistas cis parem com o transfake por algumas décadas e que vejam as transformações. “Vocês já fazem a gente por 500 anos, então fica trinta sem fazer o Transfake. E no final de 30 esse país já não vai ser mais o país que mais mata travestis e transexuais. Eles vão parar de nos matar, porque nossa presença vai ser humanizada e naturalizada. Pois só quando você convive com uma pessoa trans, você vai entender o que é transfobia, o que é ter um corpo que causa desconforto, ser referência, ver pessoas cochichando porque você tem gogó ou porque o Caio tem seio”.

ADORARIA QUE TIVÉSSEMOS UMA CLAUDIA WONDER HOMEM TRANS

Caio afirma que a ausência de referências artísticas de homens trans advém do apagamento histórico que essa identidade sofreu. Ele conta que só viu um homem trans quando tinha 23 anos e que passou a entender o seu lugar no mundo. Disse também que adoraria que houvesse mais homens trans na mídia e em trabalhos artísticos para que representem mais pessoas.

“Se eu pudesse assistir uma Claudia Wonder nos anos 80, minha vida seria completamente diferente. Se essa novela A Força do Querer tivesse contratado um homem trans, e não a Carol Duarte, que é uma mulher cisgênera, as nossas vidas estariam completamente diferentes. Mas a autora deu desculpas esfarrapadas de que o papel não poderia ser ocupada por um homem trans, como o fato de alguns serem hormonizados, terem barba e seios. É uma pena”.

Renata apontou casos de atores trans que não realizaram cirurgias, que não tem hormonização, e que poderiam fazer a novela. “Temos o Bernardo de Assis, que adiou a cirurgia de mastectomia dele, porque ele passou no teste para uma série e precisava dos seios para mostrar o antes. Ele terminou e fez a cirurgia. Agora, imagine se escalam um ator homem trans e fazem a cirurgia nele durante a novela. É de um alcance, é de uma grandeza que eu não faço ideia. Imagina o entendimento que isso ia dar na sociedade? Agora, quando falamos da Carol, falamos do talento dela como atriz e o debate sobre transexualidade acaba no próximo papel que ela fizer”, disse.


Caio disse que a representatividade ainda é pouca, que artistas transmasculinos e homens trans ainda dão para contar nos dedos, porque o debate ainda é muito inicial.

TENORA

Wallace defendeu que um/a artista trans ou travesti pode interpretar qualquer texto, e que não é preciso ter um texto específico ou sobre a temática. “Existem personagens e existem atores e atrizes. E existem diretores, que podem incluir. A grande questão é que o Teatro Oficina não vê o corpo como tabu e eu sou vista naquele espaço como atriz. Eu estou ali para presentar”, disse.

Ela contou que não nega sua anatomia – não no sentido de caracteres sexuais secundários – mas de ocupar, por exemplo, o meio de um coro formado por homens e mulheres cis por conta de seu registro vocal. “Eu fico no meio dessa roda e tudo bem. Mas eu questiono a linguagem, porque eu não sou tenor, eu sou tenora. Tem que respeitar a minha identidade de gênero. Pois sou uma mulher que alcança esse registro, desculpa”.

A atriz afirma que recentemente conversou com um ator trans, que relatou que seu diretor de teatro disse que ele não poderia passar pela transição porque perderia papeis e não seria possível mais dirigi-lo. “Mas na verdade o problema não é a transição, não é o ator ou a atriz ser trans, o problema é que este diretor é um mal diretor, que não vai saber te dirigir”.

Sobre a peça Gisberta, que foi alvo de manifestações de artistas trans e travestis de BH, que acusam o ator cis Luis Lobianco de Transfake, ela declarou: “Gisberta continua viva e está em liberdade. Ela tem voz, e a gente representa Gisberta. Nós somos micros representatividades. A questão não é dizer se ele pode ou não fazer, mas que ele nos ouça, pois nós vamos retomar esse espaço que sempre nos foram negados. Que nos ouçam porque estamos dizendo qual é a nossa realidade, porque enquanto pessoas cis eles não sabem. Mas por enquanto eles não estão nos ouvindo com ouvidos abertos, mas com muros”.


Renata finalizou dizendo que os artistas de 2018 precisam repensar o fazer artístico. E questionou: “o seu teatro inclui ou exclui?”. Pausa dramática.

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