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Senzala: Álbum de estreia de MC Xuxú ressalta poder da mulher trans, travesti, negra e periférica


Por Neto Lucon

MC Xuxú não quis nadar raso em seu álbum de estreia gravado em estúdio. Com batidas do funk, do hip hop e outros estilos, ela mergulhou fundo, abusou da musicalidade e exortou as vivências de uma mulher trans, negra e periférica brasileira. Eis que surgiu "Senzala", lançado no dia 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans.

São 10 faixas escritas e cantadas pela artista, que nesta obra manda muito mais que "beijos para as travestis". Ela levanta bandeira sem ser panfletária e ressalta o orgulho de ser. Na faixa Senzala, por exemplo, Xuxú expõe as portas fechadas pelo preconceito, mas se empodera, dá tchau para a manipulação e ressignifica verdades ditas pela sociedade.

"Mulher de peito e pau, o seu conceito não me abala"/ "Eu sou da favela, eu sei do brilho da senzala", canta a artista, na música que dá título ao álbum e que será a música de trabalho.

"Assim que escutei todas as faixas, percebi que tudo se resumia numa senzala (onde pessoas negras escravizadas eram alojadas entre os séculos 16 a 19 no Brasil). Hoje vivemos senzalas contemporâneas, tudo ainda é muito injusto, as pessoas não sabem que estão sendo de alguma forma escravizadas. Senzala é o que a maioria dos negros e negras trans da periferia vivem", declara ao NLUCON.

Não foi sem muita luta e persistência que Xuxu conseguiu gravar e lançar o seu primeiro álbum. Ela conta que tentou inscrever seu projeto numa lei de incentivo, mas foi rejeitado com menções transfóbicas. Depois, fez um financiamento coletivo, mas esteve longe de conseguir investir todo projeto. Ao mesmo tempo, recebeu uma mensagem de Elza Soares, incentivo dos fãs, passou a guardar o dinheiro dos shows e finalmente realizar parceria com o DJ Poty. "Foi um dos momentos mais pesados da minha carreira, mas que valeu a pena".


VID/ARTE

Todo trabalho artístico de Xuxú dialoga com a sua trajetória. As letras ecoam da voz de quem viveu o drama. As reflexões partem do olhar de quem viveu da prostituição, sofreu uma tentativa de assassinato e que pelejou transfobias. Por meio de uma professora de rap, sentiu o talento despertar e, desde então, transforma suas dores em arte e muda outras realidades. Ainda que tenha alcançado vários auges, nunca deixou os pés no chão. 

Não é por acaso que, para a capa do disco, Xuxú quis fazer menção à profissão do sexo - espaço que 90% das travestis e mulheres transexuais atuam. "Não cuspo no prato. A rua é mãe, porque além de ela me dar o dinheiro para produzir, ela também é terapia. É o lugar onde encontro outras pessoas que me entendem, que entendem o meu corpo e que eu não tenho segredo. Ela é ao lugar que eu dou um tempo para viver o meu sonho de viver de arte".

Na faixa "Vingancinha", a funkeira diz que, se estão xoxando, humilhando e matando as travestis, a sua resposta é a resistência, é a sobrevivência e é o empoderamento. "Para! Que eu já cansei de fazer pose / Não vim pra ser bonita, deitei pra Roberta Close / eu quero meus direitos, seu respeito, por um peito / passar visão, independente do seu conceito", canta. O refrão (ham ham, vão dizer/ ham ham pra você) é chiclete e marca uma das faixas mais gostosas do álbum.  

"Vingacinha é bafo, é o empoderamento trans. O meu disco todo é feito para pessoas trans. Quero que esse CD mostre e potencialize todas as forças que a mulher trans, traveti, preta e da perifria tem, ainda que o fardo seja maior. Deixo muito evidente isso: as pessoas vão dizer não pra gente, mas a gente que bater o pé e correr atrás do sim", frisa.

Já em "Liberdade" ela atende aos fãs que esperavam um som mais lento, com elementos do hip hop e letra forte. Fala sobre quem foi colocada no chão, mas se negou a afundar e deu a volta por cima. "Vai lá, mostra pra eles quem está no comando/ Desce e arrasa, mas arrasa esculaxando/ Esse é o Brasil, eu estou aqui/ Este é o país que mais mata travesti". A letra remete ao tom politico de Desabafo, um dos seus primeiros hits.

Escute:





FEATS

Alguns dos pontos altos do álbum são as participações especiais (os chamados e aguardados feats). Dentre os mais comemorados está com Mulher Pepita - funkeira travesti grandona pra caralho e rainha do Rahn - e com quem mantém contato pelas redes sociais.

Elas cantam a dançante e divertida Kit Assume. A faixa fala sobre a vida amorosa de uma travesti, com o refrão: "Na vida de uma trans existem dois tipos de cara, o que te assume e o que te paga". Questionada, Pepita responde qual preferiria: "Os dois, um para me pagar e o outro para me fazer feliz".

Em Missa, a participação especial é de Danny Bond, que Xuxú diz ser babado e se identificar muito enquanto artista. A faixa, que faz uma crítica ao fundamentalismo religioso já caiu na boca do público. "Hoje eu vou dobrar os joelhos, eu vou descer, me amar independente de tudo o que acontecer". Elas ainda reverenciam Carol de Niterói e Inês Brasil.

Vale destacar o feat com RT Mallone, Jovem Saga, em "Escoldada". Nele, Xuxu retoma às origens ao mesclar funk com hip hop e ressalta o girl, trans black power. Fala sobre aquela que anda escoldada, bonita, metendo marra e não deitando para ninguém. E o empoderamento feminino é compreendido e respeitado até mesmo na voz de Mallone, que diz: "Ela é dona de si, tem muito a ensinar pro mundão e eu estou disposto a aprender".

Escute:





PÓS-LANÇAMENTO

Após o lançamento do álbum, a produção de Xuxú ainda fecha algumas parcerias para shows, apresentações e outros bafos. Ela também se dedicará a enviar o material de recompensa no financiamento coletivo, como camisetas e CDs.

No dia 10 de fevereiro, ela se apresenta no bloco Minhoqueens, na Praça da República em São Paulo (confirme a presença clicando aqui). Xuxú também começa a pensar nos videoclipes das faixas.

"Temos 10 músicas boas, então agora é se dedicar para ocupar todos os espaços. Meu sufoco era conseguir lançar esse albúm. Agora é continuar o trabalho para que a arte reconhecida também seja travesti. Bora fazendo", diz.

O álbum está disponível nas plataformas Spoty, Youtube e em todas as plataformas digitais. Escute, baixe, prestigie e dê muito amor à Xuxú!


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