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Homens trans comentam peça “Lou e Leo”: “Libertador e representativo"


Por Neto Lucon
Fotos: Bernardo Enoch


O espetáculo Lou e Leo – importante obra que fala acerca das vivências trans e de outras experiências sociais importantes - deve voltar em cartaz neste ano. Trata-se de um espetáculo evolvendo a história do ator e autor Leo Moreira Sá, que já passou por diversas, sensíveis e profundas experiências.

No palco, Leo atua, performa e revisita as cicatrizes de sua vida de peito aberto, revelando sabores e dissabores desde a infância. Vai desde a rejeição por roupas ditas femininas, passa pelo amor por uma travesti, a musicalidade engajada em uma band de punk rock feminista, até o envolvimento com o comércio de drogas que o levou à prisão.

O espetáculo é dirigido por Nelson Baskerville e conta com a atuação de Beatriz Aquino e de Tom Garcia – que nesta temporada retoma o elenco original. Eles demonstram a beleza do teatro performático e de documentário, dando a oportunidade ao público de se emocionar com o protagonista presente e acompanhar o desfecho em tempo real.

Durante a Semana da Visibilidade Trans, na última semana, Leo retomou o espetáculo em uma apresentação única no Galpão Casa 1, em São Paulo, integrando a programação da Semana da Visibilidade Trans. Leo afirma que está fechando algumas parcerias para que a obra volte com tudo neste ano. Foi após essa apresentação que conversamos com alguns homens trans que assistiram a obra para falar o que acharam. 



Confira os depoimentos:

Miguel Ângelo de Simone, estudante de Direito: “Apesar das gerações diferentes, as angústias são as mesmas”


“Foi a primeira peça que assisti com um ator homem trans, pelo menos que eu saiba. Achei libertador e representativo. Normalmente, quando pensamos nas pessoas trans, pensamos em marginalidade e prostituição. E, para mim, ver um cara bem sucedido e atuando, num trabalho que ele gosta, é libertador. Até bate um pouco de esperança. Me emocionei quando ele fala sobre os seios (momento em que rola uma briga na prisão e ele fica com os seios à mostra, relatando o sofrimento da exposição). É uma angústia que eu também tenho. Também me emocionei e me identifiquei quando ele falou sobre feminismo, em como estar com as mulheres feministas foi libertador. Consigo perceber as diferenças geracionais, vendo tudo o que ele passou durante tantas décadas, o que para mim veio em um tempo muito curto. Ao mesmo tempo, observo que as angústias foram as mesmas. No dia houve uns problemas técnicos, mas a atuação dele, incrível, colocou à deriva todos os problemas. Espero que mais gente assista, pois a arte é um modo de humanizar as pessoas. Elas tendem sentir o que as pessoas sentem, de uma maneira diferente, mas com empatia”.


Bernardo Enoch, fotógrafo: “A peça aumentou vontade de me aventurar nas artes cênicas”

(Crédito: Julia Hispagnol)

Também foi a primeira vez que assisti uma peça com uma pessoa trans. Fico muito feliz quando vejo pessoas trans fazendo outras coisas fora do que a sociedade espera que a gente faça. Me faz pensar que realmente posso ser e fazer o que eu quiser. Uma das primeiras coisas que pensei quando aceitei que era trans foi: “e, agora, o que farei?”. E cada vez mais eu tenho visto que posso fazer o que eu quiser, isso não muda nada. São tempos diferentes e a realidade do Leo era muito diferente do que a minha foi. A única coisa em comum é que somos homens trans. Mas consegui por um momento imaginar algumas coisas comigo e confesso que chorei em algumas partes. É inspirador, sabe? Ele passou por tanta coisa e ainda está aqui, está contando a história dele e fazendo mais história. O relato sobre o abuso foi o que mais me deixou tenso. Sempre acho esse tema bem pesado, mesmo sendo retratado de forma sutil. E mais para frente você vê que aquilo deixou um trauma, depois ele passa por cima desse trauma. Achei babado! Estou louco para ver de novo e recomendo para todo mundo. Só me fez ter ainda mais vontade de me aventurar no mundo das artes cênicas”.]


Vitor Lucas, estudante e militante: “Não conseguia tirar os olhos do Leo e da Beatriz”


“Achei bem interessante e comovente o espetáculo pela atuação do Leo. Ele passou toda energia da trama. Eu pelo menos pude sentir o que ele passou. Teve uns pontos da história que eu me identifiquei e que, sim, mexeu bastante comigo. Já passei momentos da minha vida que foram semelhantes ao da peça. Não que minha mãe me obrigasse a usar roupas femininas na infância, mas na adolescência eu quis agradar ela e comecei a usar e me arrumar mais. Mas esse é um momento que eu não quero mais lembrar (risos). A parte que me marcou foi a da praia com o cunhado (há um abuso durante uma ida ao mar). A peça é forte, a atuação do Leo e da Beatriz é comovente, eu não conseguia tirar os olhos deles. Indicaria para todos, principalmente para meus pais que desde o ano passado tem me ajudado muito e participado do grupo de apoio aos pais de transgêneros GPH”.


Luan Romano, designer gráfico e ativista trans: “Todos choramos com o gosto amargo”


“A peça carrega elementos que conectam toda a comunidade trans masculina: o começo conturbado com a mãe, a pouca masculinização diretamente tratada como "lésbica masculina", a marginalidade que alguns são convidados da viver ou morrer, o romance inesperado até por alguém que a gente nunca imaginaria rolando algo. E infelizmente, o estupro. Esse que pode vir do mesmo sangue, ou de quem possui a chave de casa por aparentar ser de confiança. A descrição desta cena foi a mais impactante para mim, imaginar aquele pequeno ser, ainda se descobrindo "gente", sendo abusado por quem se dizia ser amigo, em quem se podia confiar. Foi um choque. Todos choramos com gosto amargo a essa passagem da vida de Leo. Também me identifiquei com a relação com a mulher trans, pois nessa transição a gente se perde entre gênero, orientação e sexualidade. Por isso as ideias podem se perder e misturar com a opinião de terceiros, e o que é um perfeito amor pode não acontecer por simples preconceito. Também me apaixonei por uma mulher trans, nossa primeira noite de sexo foi confusa e lamentável, mas a gente tentou de novo e deu tão certo que estamos casados. A prisão também revolta. Mas com tanto suor e lágrimas, a gente vê que tudo valeu a pena para o Leo, graças a Lou”.


Luiz Fernando Prado Uchôa, tecnico de comunicação: "História mostra que não há apenas um tipo de masculinidade possível"


“O espetáculo é interessante por explorar a vivência de uma pessoa que, como eu, não sentia plena em uma identidade cisgênera. A narrativa é intensa e me fez entender a importância de estarmos presentes em todos os segmentos sociais para desmistificar que não há apenas um tipo de masculinidade possível. A história por inteiro me emocionou por relatar uma série de conflitos com relação à identidade de gênero, orientação sexual, passagem pelo submundo dos entorpecentes, a arte como ferramenta para a cura de feridas emocionais e, também, a ideia de que somos escritores de nossas narrativas por mais que vivamos em nossa sociedade cisheteronormativa altamente preconceituosa. E que cabe a nós totalmente responsabilidade por mostrar que a nossa capacidade de ocupar qualquer espaço. A iluminação combina perfeitamente com os elementos narrativos propostos e acontece, uma simbiose perfeita entre esses dois elementos. Recomendaria às outras pessoas assistirem a peça para desmistificarem os seus conceitos acerca do binarismo de gênero e do conceito romântico de amor impostos socialmente”.

Confira outras fotos do espetáculo: 








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