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“O cinema me salva da depressão”, diz atriz trans Julia Katharine


Por Neto Lucon

O caminho pela representatividade trans não tem volta – ainda que haja muitas barreiras, resistência e discursos contrários, é uma realidade. Nos últimos anos, vemos cada vez mais artistas trans e travestis mostrarem talento, arrasarem, surpreenderem, sobretudo reivindicarem seus espaços.

A atriz Julia Katharine faz parte dessa nova geração de artistas trans e travestis que vem emocionando, ocupando a lacuna e recebendo calorosos aplausos. De quebra, levando merecidos prêmios e fazendo história.

O primeiro contato com a arte aconteceu pela figuração do filme Crime Delicado, de Beto Brant, nos anos 2000. Durante a gravação, ela improvisou uma fala, que acabou entrando na obra. Acabou interrompendo a carreira por não acreditar nas oportunidades. Posteriormente, recebeu um convite do diretor cis e aliado Gustavo Vinagre e vem trilhando uma parceria de sucesso

Em janeiro, Julia venceu o troféu Helena Ignez, na 21ª edição da Mostra de Cinema Tiradentes pelo filme “Lembro Mais dos Corvos”, em que é protagonista. Anteriormente, ela já havia levado o prêmio de “Melhor atriz coadjuvante” pelo curta que apresentou no Guarnicê Festival de Cinema, no Maranhão. Ao NLUCON ela fala sobre a vida, carreira e desafios:

- Você é a protagonista do filme “Lembro Mais dos Corvos”, que tem a direção do Gustavo Vinagre. O que poderia falar sobre a obra?

Tenho uma parceria no cinema de três curtas com o Gustavo. Então um dia ele sentou e me convidou: “Quero montar um filme sobre sua vida, não no formato clássico. É uma conversa e você vai falar o que quiser”. Fiquei muito feliz, pois é a estreia dele em um longa-metragem. Escolhemos alguns assuntos, desenhamos um roteiro e gravamos. Algumas coisas são ficcionais para que as pessoas fiquem se perguntando o que é verdade e o que é mentira. Mas é um filme que tem muito de mim. É uma conversa minha com o diretor por 85 minutos. Ele investiu dois mil reais. Foi filmado em uma só noite e nenhuma das cenas tem segundo take. Ele queria que o filme fosse cru e realista. É um filme muito delicado.

- Como está sendo a recepção? Acompanhei que o filme foi exibido e aclamado recentemente na 21ª edição da Mostra de Cinema Tiradentes...

Esperávamos que o filme fosse bem recebido, mas não de maneira tão calorosa como foi. As pessoas se emocionam, riem, elas veem falar comigo muito felizes com o filme, torcendo para que ele tenha uma carreira bonita. É muito emocionante quando você vê a história de uma mulher transexual contada de uma maneira muito leve e movimentar as pessoas. Recentemente tive contato com a Linn da Quebrada quando fiz figuração no clipe Mulher e com várias mulheres transexuais e cis, então pensei: “Poxa, nós temos histórias muito boas para ser contadas. Que bom que estamos fazendo isso”. E que bom que a recepção tem sido tão calorosa.

- Você chegou a vencer o troféu Helena Ignez – que é de resistência às mulheres que estão inseridas como diretoras, diretora de fotografia, montagem e roteiro. Como avalia o fato de ser a primeira mulher trans a ser premiada nesta Mostra em um prêmio que fala justamente sobre um recorte de mulheres?

Estou muito impactada com tudo o que aconteceu. Viver aquela efervescência, as pessoas falando de cinema, de questões raciais, de igualdade de gênero, foi muito rico. Voltei com a cabeça cheia e fervilhando. Além do prêmio, que me deixou com uma alegria tão grande, fiquei muito esperançosa por ver, além do filme que estive, a MC Xuxú em um filme e a Roberta Gretchen Copolla no filme Vaca Profana, que passou lá. Infelizmente elas não estavam presentes fisicamente. Era só eu e mais ninguém. Na plateia havia uma mulher e um homem trans. Mas eu quero mais é que as atrizes trans tenham espaço no cinema e no audiovisual.


- Aliás, esse foi o seu discurso ao receber o troféu. Ainda que começamos a ver esse espaço, ainda falta oportunidade?

Falta empregabilidade e falta a nossa presença nesses espaços. Em Tiradentes, falei com algumas pessoas: “Se tiverem roteiros com personagens trans, contratem atrizes mulheres trans, homens trans, travestis. Deem preferência para nós, não coloquem homens cis e mulheres cis. Pensem que existem um mercado e que existem mulheres e homens trans que são artistas”. Eles existem, não é uma coisa que está começando, já tem! Mas esse prêmio não significa que podemos tomar fôlego. Não, temos que continuar na luta: militar, militar, militar. Não só pelo fato de sermos trans, mas pelo fato de termos talentos e merecermos oportunidades como todas as pessoas.

- As discussões sobre empregabilidade e representatividade trans são absorvidas nesses espaços de arte?

Existe um movimento feminino acontecendo fortemente agora de se impor nesses festivais, nessas mostras. As mulheres cis estão com muita vontade de ocupar esse espaço e fico feliz que as mulheres trans estão sendo bem recebidas. Na Mostra, participei de um grupo de mulheres em que eu era a única mulher trans. Elas diziam: “que bom que você está aqui, é importante você estar aqui, somos diversas e somos todas mulheres”. O que acho que falta são os homens entenderem que somos uma força, que temos talentos e que temos capacidade de produzir filmes incríveis. Ainda sinto falta de mulheres nesses espaços. No júri havia mulheres, mas enquanto realizadoras são poucas, são poucas apresentando seus filmes. Gostaria que houvesse 50% de mulheres e 50% de homens, que haja igualdade nas competições. Também sinto falta de mulheres negras. Somos um país cuja maioria é negra e as pessoas não se dão conta disso, pois quando vamos assistir aos filmes, a maioria tem protagonismo branco. Acho importante que haja diversidade e espaço para todas e que essa diversidade seja naturalizada.

- Você acha que a sua presença enquanto atriz e mulher transexual ainda não é vista com naturalidade?

Não é e eu não quero que minha presença seja um acontecimento. Quero estar ali porque trabalho com cinema, sou atriz... Mas infelizmente não é assim e não podemos nem tomar fôlego. É militar, militar, militar... Agora, vou te dizer porque nossa presença é importante: Durante o festival eu não recebi nenhuma transfobia sequer. Porém, depois que eu ganhei o prêmio, que o festival encerrou e eu fui almoçar num restaurante, ocorreu um episódio. Um jovem de uns 22 anos gritou do carro: “viado”, “traveco”. As pessoas que estavam em volta riam e não tinham a menor relação de empatia pelo que estava acontecendo comigo. Ao contrário, achavam graça. Eu não fiquei com raiva desse cara. Eu entrei no restaurante pensando: a gente precisa se movimentar para que os filhos desse cara não façam o que ele está fazendo. Se a gente não pensar em educar para acabar com a transfobia, ela não vai acabar. Penso muito em educação, formação, oportunidade e empregabilidade. E tenho feito isso com muita leveza, amor e afeto. O afeto é muito transformador. Tive muitos conflitos com minha família pela minha transexualidade. E melhorou muito quando desenvolvi uma relação de afeto, de trabalhar a empatia, de me colocar no lugar deles. Sinto que consegui o respeito de muitas pessoas da minha família.

- Por falar em família de descendência japonesa, lembro que tinha um amigo cuja família não aceitava sequer que ele namorasse uma brasileira, então nem imaginava que ele fosse gay. Foi complicado revelar que é uma mulher transexual?

Não há uma regra, pois cada família é de um jeito. A minha, por exemplo, é miscigenada. A minha mãe é cearense e a do meu pai é que é japonesa. No começo foi muito complicado minha família por parte de pai lidar com minha transexualidade. Ele tinha vergonha. Mas próximo da morte dele, ele começou a lidar de uma forma mais legal, a gente passou a se entender melhor. Ele morreu e eu senti um vácuo dentro de mim. E para que eu pudesse entender essa relação mal resolvida com ele, fui para o Japão conhecer a vida dele, o universo que ele viveu. Percebi que os japoneses não têm tanto problema com a transexualidade, mas com os dekasseguis (trabalhadores estrangeiros residentes no Japão) eu sofri muito preconceito. E era chocante ver um país tão bacana ter essa diferença de comportamento. Consegui entender muito o meu pai. Hoje, posso falar que tenho uma relação muito boa com os irmãos do meu pai, com os filhos deles. Eles são muito tolerantes, mas não de um modo negativo. Eles lidam com a minha transexualidade, com a minha depressão, de uma forma muito amorosa. Eles acompanham minha carreira, vão ao Facebook...


- Quando ocorreu seu primeiro trabalho artístico?

Foi no começo dos anos 2000, quando fui convidada para uma figuração do filme “Crime Delicado”, de Beto Brant, quando assinava com outro nome. Eu trabalhava com o Mauro Borges, Ebony e Renata Bastos. Só que eu acabei fazendo um improviso nessa cena, que acabou entrando para o filme. Mas naquela época, apesar de eu sempre querer trabalhar com cinema, eu não via muita esperança de uma mulher trans estar naquela área. Não surgiram outros convites e a vida me levou para outro caminho, fui parar no Japão. E depois vivi uma depressão profunda.

- Poderia falar um pouco sobre como foi passar pela depressão? A arte te ajuda nesse processo de cura?

Há uns três anos, nada fazia sentido para mim. Eu só assistia filmes, um atrás do outro, era a forma de me manter viva. Eu tenho que agradecer ao Gustavo Vinagre, pois quando ele fez o convite para mim (para gravar o curta Os Cuidados Que se Tem com o Cuidado que os Outros Devem Ter Consigo Mesmos”), eu ainda estava muito assustada, fragilizada e o filme foi tão bem recebido. Cheguei a ganhar o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Guarnicê Festival de Cinema, no Maranhão. Não pude estar lá, porque estava trabalhando na Vitrine Filmes. Engatamos uma parceria com três curtas, um filme e já estamos preparando um novo. Eu sempre digo que sou uma mulher com depressão, que ela não tem cura, mas que podemos lidar com ela. Às vezes dá recaídas, ela volta... Mas o cinema me ajuda, me salva da depressão e não me deixa sucumbir. Eu não deixei de existir nesse plano por causa do cinema. Eu queria muito que esse momento fosse inspiração para muitas meninas. Assim como eu pude conhecer Rogéria antes de ela morrer, a Jane Di Castro...

- Quais são as atrizes que você tem como referência?

Me inspiro em várias, como a Gilda Nomacce, Majeca Angelucci, Nash Laila, Roberta Gretchen Copolla, Leona Johvs, Malu Galli, Helena Ignez e Djin Sganzerla.

- Há muitas atrizes e atores trans escondidos e talentos desperdiçados?

Vi uma apresentação das Divas Florescer (espetáculo com diversas moradoras da Casa Florescer, que acolhe travestis e mulheres transexuais em situação de vulnerabilidade). Elas são tão maravilhosas e há tantas com talento nato, de interpretação de atriz. Gostaria muito que as pessoas se inspirassem para que a ficha caísse: eu posso, eu vou ser atriz, eu tenho talento. Muitas têm mesmo. Há quem diga que falta qualificação, mas que nos qualifiquem. Não basta um programa como Transcidadania, a Casa Florescer, precisamos de muito mais.

- O quê, por exemplo?

É preciso que essa turma do audiovisual crie workshop, oficinas profissionalizantes, que insiram as pessoas trans nesse universo. Muitas escrevem divinamente, são criativas, o que falta é um empurrão. Que haja uma oficina de roteiro, edição de som, técnico de som, para o que for, mas que nos preparem. As grandes empresas, grandes grupos, conseguem patrocínio e investimento fácil. No trabalho da Vitrine, eu procurei distribuir ingressos gratuitos para as meninas trans que estudavam no Sieja. Quando estreou Divinas Divas, eu fiz uma lista e incluí várias meninas trans. Porque entre comer, se vestir e ir ao cinema, é lógico que elas vão comprar comida, pagar o aluguel e comprar uma roupa. Ninguém deixa de comer para ir ao cinema. Então tento dar o meu máximo e as pessoas também podem ter várias iniciativas para ajudar. É importante que a gente esteja empenhada em abrir esse caminho.


- O seu discurso é absolutamente engajado nas demandas da população trans. Você frequenta eventos de militância?

Tenho uma vida muito maluca. Vou pouco aos eventos de militância, gostaria de ir mais. Estava em Tiradentes quando teve a Caminhada Pela Paz, queria ter ido, não pude. Mas ao mesmo tempo em que não tenho o convívio diário, eu me sinto com elas em espírito, em outro nível, transcendental. Eu acompanho tudo pelo Facebook, leio o que elas escrevem, tenho contato com a Leona Jhovs. Ainda não estou no Monart, ainda. Tenho encontros e desencontros com elas, mas apoio todas. Tanto que tento usar o meu momento de falar para apoiar e estimular que haja essa representatividade ampliada. É muito fácil ganhar um prêmio, agradecer as pessoas envolvidas no filme e usar isso como ato egoísta. Eu quero mais é compartilhar, senão as coisas não andam... 

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