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Pré-candidatas trans fazem história ao se unir em Frente Suprapartidária no RJ

Giowana, Bárbara, Jaqueline e Indianare

Por Neto Lucon

Após o boom de candidaturas trans nas eleições de 2016, as candidatas trans, travestis e transvestigeneres às eleições do Rio de Janeiro neste ano estarão unidas, independentemente do partido de esquerda que estarão. É o que se comprometeram as pré-candidatas Jaqueline Gomes de Jesus (PV), Indianare Siqueira (PSOL) e as lideranças políticas Bárbara Aires (PSOL) e Giowana Cambrone (REDE).

Durante o debate "Ser Trans na Política", na CAARJ, no dia 30 de janeiro, em menção ao Dia Nacional da Visibilidade Trans, elas assinaram o documento que instaurou a "Frente Suprapartidária de Apoio Às Candidaturas Trans". É a primeira vez na história que há este acordo na política.

As propostas assinadas em documento vão desde o comprometimento da defesa das pautas referentes às pessoas trans, o enfrentamento à transfobia e outras discriminações sociais, a luta para que as vozes das pessoas trans e travestis sejam ouvidas nos espaços institucionais, até a visibilidade das pessoas trans nos debates políticos. "Queremos mostrar que a união das pessoas trans, mesmo com ideologias diferentes e que a pauta trans esteja acima dessas diferença", declara Bárbara ao NLUCON

A professora de psicologia Jaqueline, que é pré-candidata a deputada estadual pelo PV, afirma que a proposta é que as candidaturas trans estejam unidas contra o machismo e a transfobia, que existem até mesmo nos partidos, e mostrar sororidade. "Para além das diversidades partidárias, teremos esse compromisso de lutar de forma acirrada contra essas opressões. Não somos adversárias por estarmos em diversos partidos, a nossa luta é a mesma: lutar contra o cistema com 'c'".

A militante e puta Indianare, que recebeu 6.166 votos nas eleições de 2016 e foi a quarta vereadora suplente no PSOL, defende que as eleições não devem dar margem às inimizades entre as pares: "Estamos juntas no enfrentamento e movimento o ano inteiro, então não é porque chega as eleições que seremos ou viramos inimigas. Não se trata de uma aliança de partidos, é uma aliança entre nós. Queremos mostrar que é possível uma nova política", frisa. Nestas eleições, ela vem como pré-candidata a deputada federal.


Jaqueline convoca lideranças e outras pré candidaturas trans também a participarem da Frente, inclusive os pré-candidatos homens trans, que até o momento não foram divulgados e localizados. "Não podemos nos subordinar enquanto trans aos conflitos que são dados aos partidos, que muitas vezes negam a nossa identidade de gênero. Que mais pessoas participem e se engajem e que a gente consiga construir uma campanha em conjunto, que valoriza, que dê visibilidade e apoio".

REPRESENTATIVIDADE INSTITUCIONAL

Segundo Jaqueline, nos dias de hoje ainda se espera um tipo de candidato: o político homem cis, classe média alta, empresário, latifundiário. "Mas eles estão muito longe de representar a população", declarou, frisando que a população trans também pode ocupar esse espaço. "Por que nós não podemos estar e representar? Eu me senti muito empoderada quando o PV me chamou para estar na Secretaria da Mulher e não necessariamente na Secretaria LGBT. Isso foi fruto da minha atuação em vários campos, várias identidades e na questão dos direitos humanos, que vai além de um grupo". 

Para Indianare, somente o fato de haver candidaturas trans já um "raxa para a sociedade", que se vê impedida de invisibilizar tais corpos e vivências e obrigada a debater e discutir sobre eles. "Quando estamos na política não tem como mais negar nossa existência, pois vamos discutir sobre elas e colocar ela nas pautas. Só isso leva a senhorinha lá de longe que nunca viu uma pessoa trans entender melhor, a outra que tem uma filha transvestigenere...".

Afiliada à Rede Sustentabilidade como coordenadora nacional de movimentos sociais, a advogada Giowana Cambrone afirma que a união de travestis, homens e mulheres trans na política é estratégica, uma vez que a democracia e a justiça social ocorrem, não tão somente pelo voto da maioria, mas também por meio da representatividade institucional.

"De forma organizada podemos realizar ações pública estratégias e alinhamento de discurso em torno de pautas comuns e para despertar a consciência coletiva, não só quanto a vulnerabilidade a que pessoas trans são submetidas, mas também com pautas de direitos e políticas públicas universais", afirmou. Giowana defende que o voto é essencial para que "possamos não somente pautar a discussão, mas também ocupar espaços políticos negados historicamente a essa população e minimamente garantir a representatividade política".

CANDIDATURAS

Em 2016, mais de 80 candidaturas de travestis, mulheres transexuais e homens trans ocorreram em todo o Brasil. Foi a primeira vez que um número tão expressivo de pessoas trans se candidataram e tentaram trazer alguma mudança por meio da política. Deste número, pelo menos 10% conseguiram se eleger.

Giowana afirma que o aumento do número de candidaturas deve-se a um movimento autônomo e não organizado ou pensado estrategicamente. "É fruto da percepção e reconhecimento de que somos sujeitos de direito, e como tal cidadãs e cidadãos capazes de ocupar os mais diversos espaços, inclusive os espaços políticos", defendeu. 


Ela diz que os partidos políticos também tem realizado de maneira inicial o movimento de acolhimento e propositura de candidaturas trans. "Perceberam que em uma democracia é importante dar voz a essa minoria e fortalecer a politização". Giowana é coordenadora nacional de movimentos sociais e a primeira pessoa trans a ocupar um cargo de direção em uma executiva nacional. "Normalmente as lideranças trans dirigem os segmentos e setoriais ligados ao movimento LGBT, mas não são convidadas a serem dirigentes de cargos com envergadura maior".


Jaqueline destaca o amadurecimento do processo de representatividade nas instituições, trabalho nos partidos e no próprio movimento trans. "É a concretização disso. É a demanda de um coletivo e um trabalho que vem se desenvolvendo ao longo dos anos".


Ela afirma que se tornou pela primeira vez pré-candidata do PV - após passar pelo PT, Rede e PCdoB - após um convite que demonstrava o compromisso com a construção original do partido. "Originalmente o PV tinha uma proposta revolucionária, sustentável, de inclusão de diálogo e de valorização da diversidade. Ele tinha Herbert Daniel e Gabriela Leite. Então, o partido indicou esse caminho e eu achei que é relevante ocupar esse espaço". 

"Minhas propostas pensam num projeto que visa a valorização da diversidade, da educação e da saúde. Eu, enquanto professora, mulher, negra, trans, que tem uma história de vida específica, posso contribuir muito a partir do meu olhar para toda a sociedade, não só para as pessoas trans", diz.

Já Indianare conta que seu objetivo é estimular outras candidaturas trans, ainda que outras candidatas demonstraram não querer disputar ao seu lado como deputada federal. Ela afirma que é mais uma vez pré-candidata pelo PSOL por acreditar ser o melhor partido de esquerda, apesar de admitir viver uma relação de amor e ódio. "Algumas pessoas do partido não gostaram da nossa Frente, por exemplo. Mas nós não nos intimidados e dizemos que, enquanto transvestigeneres, não vamos nos atacar. disputaremos unides". 


Bárbara acredita que neste ano haja ainda mais candidaturas. "Parece que teremos, sim. Pelo menos no Rio já se falam em cinco possíveis candidaturas de pessoas trans, inicialmente apenas de identidade de gênero feminino", diz. Ela diz que a repercussão na mídia da questão e as defesas radicais nas redes sociais também encorajaram muitas pessoas trans a se arriscarem na política. "É uma população organizada, que luta e entende de política, por precisar defender seus direitos e fazer política até ir à padaria". 

As candidaturas devem ser oficializadas em agosto. 

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