Header Ads

Concorrendo ao Oscar, filme de diretor trans Yance Ford é resgate à (in)justiça para irmão cis assassinado


Por Neto Lucon

Strong Island é um dos concorrentes ao Oscar de "melhor documentário" neste domingo (04). Ele é dirigido pelo diretor Yance Ford - o primeiro homem trans indicado - e revela o drama de uma família que vivenciou o racismo e que foi abalada ao ter ter um filho assassinado a tiros nos anos 90. A vítima foi transformada no suspeito da própria morte em Long Island.

O homem cis assassinado é William Ford, 24 anos, irmão de Yance, o primogênito da família. Ele foi morto a tiros no dia 7 de abril de 1992 por um mecânico branco de 19 anos, ao ir buscar o carro numa oficina. Meses atrás, houve um acidente de trânsito e o combinado é que consertariam o carro, mas não houve reparo. Houve um novo desentendimento, uma ofensa à mãe de William e o tiro certeiro com um rifle.

O momento do assassinato é recontado pelo amigo que estava presente, que o abraçou após receber o tiro e que logo foi retirado do espaço. Ele alega que na abordagem policial o assassino não foi algemado e sequer encaminhado à delegacia. Eles apenas conversavam com ele, enquanto William não recebia atendimento médico. Ele foi informado que o amigo estava morto de maneira fria e que soube naquele momento que nada seria feito.

A obra faz um verdadeiro resgate, não apenas do caso, mas de toda a trajetória da família que viveu a dor da impunidade. Por meio de fotos antigas, Yance reconta como os pais se conheceram, trabalharam, tiveram filhos, criaram e vivenciavam o racismo constante - bem como foram induzidos a morar em um bairro apenas com pessoas negras, para manter a divisão e segregação racial. E que apesar dos desafios de todo mundo e os específicos, formavam uma família unida, até o episódio. 

São entrevistados a mãe, a irmã, amigos, o detetive, a juíza responsável e o próprio diretor. De repente, com os relatos, aquele homem assassinado há décadas começa a ganhar rosto, história e despertar empatia. William era acolhedor, tinha sonhos, era amado, amava, protegia os irmãos, defendia os amigos, estava pronto para começar a trabalhar. E a dor e revolta daquela família começa ser sentida. Yance conta que não teve a oportunidade de dizer que era homem trans ao irmão, mas que em uma das últimas ligações, ao contar uma briga que teve, sentiu que ele já sabia. Ele poderia ter ligado para outros amigos, mas escolheu ligar para Yance.


É preciso ressaltar que a relação tão próxima dos entrevistados não forja um lado da moeda e não isenta informações importantes. Ao contrário. A proximidade mostra seriedade em relação ao tema e aprofunda a versão que sequer teve chance de ser mostrada ao júri oficial. O acusado não foi indiciado ou julgado, pois uma espécie de pré-juri entendeu que o assassino apenas se defendeu. A mãe declara que numa espécie de avaliação com civis brancos foi vista como "apenas mais uma mulher negra que não conseguiu criar direito seu filho e que quer culpar outra pessoa". 

Há uma descoberta inédita para Yance e os familiares durante o filme e que evidencia as motivações para o caso não ter ido a julgamento. Há um choro desenfreado. A dor é real, vive ainda hoje e é visível na emoção daqueles grandes olhos. O racismo é exposto sem medo de dizer o nome e evidencia o que vai além do discurso. Ele também é real, afetou e continua afetando muitas famílias. 

Vale dizer que o filme não tem a pretensão de condenar o assassino de décadas atrás e sequer mostra o seu rosto, ainda que seu nome seja falado. Para Yance, ele tem o rosto de qualquer pessoa branca. Mas resgata essa memória, evidencia a injustiça e sobretudo repara a história de William e sua família publicamente. Se não houve julgamento oficial e se sua família sequer teve direito de defesa local, hoje ele usa o espaço conquistado para dar voz a essa dor e reivindicar o resgate de uma vida tão importante ao mundo. Para ele, a indicação ao Oscar deve ser comemorada porque mais gente vai conhecer a história. Porque vidas negras importam...

O filme está disponível no Netflix (dublado e legendado). Algo que incomoda e deva ser questionado é o fato de usarem a voz de uma mulher cis para dublar Yance em português e tratá-lo o tempo todo no feminino.

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.