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Artistas trans fazem manifestação contra o “transfake” no RJ: “Estão matando Gisberta de novo”


Por Neto Lucon

Integrantes do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans) realizaram nesse fim de semana uma manifestação contra o “Transfake” e “Diga Sim o Talento Trans”, no Teatro Rival, no Rio de Janeiro. O grupo aproveitou a nova apresentação da peça Gisberta, protagonizada pelo ator cis Luis Lobianco, para falar sobre suas demandas de exclusão e empregabilidade.

Segundo a atriz travesti Dandara Vital, a manifestação não é específica ao ator Luis Lobianco, mas contra a estrutura histórica do transfake, prática que sempre escala artistas cis para interpretar personagens trans, enquanto as artistas trans são sempre excluídas e não conseguem interpretar nenhum papel.

“Apesar de o Lobianco estar levando para o lado pessoal, a nossa luta é por representatividade. Ou seja, de estarmos de corpo presente em todas as esferas: social, política, artística, cultural. É recuperar uma violação de acesso que nos é negado diariamente”, afirmou Dandara ao NLUCON.

Ao jornal O Globo, Lobianco diz que pode contar a história de uma pessoa trans, pois é “homossexual, militante das causas LGBT” e porque tomou “cuidado” com “delicada a questão da representatividade”. “O espetáculo não é para mostrar o virtuosismo de um ator interpretando uma trans. Mas para que o Brasil conheça um dos casos mais violentos de transfobia do mundo. E, quem diria, o transfóbico virei eu”.

Dandara explica que esta não é a primeira manifestação sobre a temática do transfake, mas que há resistência dos artistas cis se sensibilizarem com o discurso do grupo e destaca que até hoje não há um/a profissional trans na equipe do espetáculo desde a primeira manifestação em 2017. Também afirmou que o Teatro Rival – conhecido pelos shows de travestis nos anos 60 – excluiu as artistas travestis da comemoração de 84 anos e apoiou uma peça com transfake. Disse ainda que a produção se negou a distribuir ingressos para pessoas trans.


Luis Lobianco em Gisberta

A MANIFESTAÇÃO

Por volta das 17h, cerca de 30 pessoas trans e 10 pessoas cis se reuniram para organizar a manifestação e escrever cartazes. Às 18h30, o ato começou com a encenação da morte da Gisberta – travesti brasileira que foi assassinada em Portugal, tornou-se nome de lei no país e que é tema do espetáculo. Usaram velas, saco preto e falavam sobre a transfobia.

“A partir do momento em que Lobianco e sua equipe negam nossos corpos, eles estão matando Gisberta novamente. E também tivemos o intuito de simbolizar as Gisbertas que são mortas diariamente, levando o Brasil ao topo de assassinatos de pessoas trans”, explicou Dandara.

O grupo comprou ingressos e outros convites foram doados por quem passava pelo local. “Diziam que a gente deveria, sim, ocupar aquele espaço”, conta. Dandara diz que todos assistiram a peça em silêncio, sem interromper e que a manifestação ocorreu somente ao final. “Tentamos conversar tanto com Lobianco quanto com a plateia. Eu queria entregar uma lista de pessoas trans envolvidas em geral com a arte, mas como ele virou as costas eu joguei e ele ignorou. Depois disse que tacamos um cartaz”.

Ao ver a manifestação das artistas trans, a plateia ignorou e começou a aplaudir mais fortemente o espetáculo. Lobianco disse que era essa a resposta dele e saiu de cena. Nas redes sociais, ele comemorou a reação: “Quanto mais o ódio da militância radical trans mostrava a sua cara tomando a primeira fila no fim da peça, mais o teatro lotado aplaudia com mão forte e gritava bravo. E mais as LGBTs aliadas batiam cabelo comigo, na resistência e no amor”, declarou em post.

Segundo o ator cis, a manifestação mostrou ódio e fascismo. “Jogaram até cartaz em cima de mim enquanto a cortina se fechava. Chamaram meus convidados de assassinos, o público de criminoso e me impediram de falar com as pessoas no fim”. Ele disse que as manifestantes xingaram de transfóbicas até as amigas trans dele.

Dandara afirma que reação dele e da plateia evidencia a transfobia. “Quando dizemos que nossa morte é o entretenimento deles, é claro que eles vão se sentir intimidados, quando na verdade deveriam rever seus privilégios e refletir sobre isso. O que mais incomoda é que ele é o líder de um movimento que faz com que a gente passe como violentas e violentos. Se não querem dar voz para gente, a gente precisa gritar. Ele não fala que eles querem nos silenciar, falam apenas que somos violentas. Isso dói, viu, porque reproduz a realidade da travesti e das pessoas trans”.


Dandara Vital (crédito: Bruno Coqueiro)

REPERCUSSÃO

A manifestação saiu na mídia hegemônica. Curiosamente, o jornal O Globo e a o jornal Extra mostraram apenas a versão de Lobianco.

Ao Globo, o ator afirmou ser vítima de agressões nas redes sociais e de fakenews. “Disseram que me recusei a conversar e que assassinei Gisberta”. Ele diz que tem se sentido muito triste. “Cheguei a ter crise de pânico, fiquei paranoico. Foi terrível. Pensei em desistir, mas meu marido e amigos em ajudaram. A peça me transformou. Eu era o youtuber do humor. Hoje faço teatro político”.

Dandara diz que o discurso de Lobianco ajuda a marginalizar as pessoas trans. “Enquanto ele se faz de vítima, as travestis e pessoas trans estão sendo mortas, 90% está na prostituição de forma compulsória. Eu também estou tendo meus problemas psicológicos, fui chamada de militante de teclado, fascista, doente, mal resolvida, invejosa, louca, vingativa, radical, oportunista. Mas não quero ser a vítima, quero ter argumentos para falar sobre a representatividade trans. Eu perdoo vocês. Já sabia que não seria fácil”.

O debate continua...

Assista debate sobre representatividade trans abaixo: 


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