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“Não precisamos ser homem ou mulher para sermos alguém”, diz não-binário João Daniel


Por Neto Lucon
Fotos: Rafael Sant's / Neto Lucon

Num mundo dividido por dois gêneros – homem e mulher, masculino e feminino - falar sobre não-binaridade ainda é um tabu. Até mesmo para quem rompe, apoia ou questiona o sistema cishteronormativo da sociedade.

Mas ainda que haja resistência para acolher esta identidade de gênero, cada vez mais as pessoas não-binárias mostram que existem, resistem e se organizam para que suas pautas sejam colocadas em evidência e suas vivências sejam legitimadas.

Recentemente, conhecemos o escritor, militante e operador de caixa João Daniel. Ele tem expressão de gênero masculina e identidade de gênero não-binária. Isto é, ainda que tenha sido designado mulher ao nascer e se expresse dentro do gênero masculino, ele não se identifica nem como homem nem mulher.

João representa mais uma possibilidade dentro das identidades não-binárias e das identidades trans. Ele mora em Jundiaí, município de São Paulo, e utiliza de sua trajetória, vídeos e textos para dar visibilidade à causa. Ao NLUCON, ele fala e reflete um pouco sobre os caminhos que percorreu até aqui.

Assista a entrevista ou leia abaixo: 



- O que é ser não-binário?

Não se ver totalmente como homem e nem totalmente como uma mulher. Ou não se ver como nenhum dos dois. No meu caso, eu não conseguia me ver como homem, mas não conseguia me olhar e falar 'sou uma mulher'. Eu sabia que tinha alguma coisa errada, mas não sabia o que era. Eu cresci com essa dúvida, até eu descobrir que pessoas não-binárias existem e que a gente não precisa ser homem ou mulher para ser alguém.

- Como foi a sua adolescência não sabendo com qual identidade se identificar? Como foi esse processo?

Complicado. Primeiro eu descobri que gostava de mulher. Aquilo bagunçou a minha cabeça, eu tentava evitar e esconder das pessoas. Era complicado porque, além de não me aceitar bem a minha orientação sexual, eu não estava bem comigo mesmo. Eu sempre tive poucos amigos, nunca fui uma pessoa muito sociável. Eu me fechei muito no meu mundo por medo, por não me entender, por ter alguns questionamentos sobre minha identidade de gênero.

- Quando foi que você teve contato com as pessoas não-binárias?

Há pouco mais de um ano, questionei a minha identidade de gênero um pouco diferente do que as pessoas geralmente costumam. No meu caso, comecei a frequentar um terreiro e após um trabalho, um deles veio conversar e me perguntou: "Por que você está mentindo pra você e para as outras pessoas? Se você parar pensar na sua infância, adolescência e na sua vida agora, você vai entender". Eu entendia o que ele tinha dito, mas estava perdido. No meu trabalho, eu já tinha passado mal e o guia queria saber o meu nome, mas o meu documento estava na mão dele. E ele disse que queria saber o meu nome de tio, que era o meu nome de verdade. Depois disso, eu chorei e foi quando comecei a pesquisar e via muito sobre homens trans.

- Nesta pesquisa, havia algum tipo de identificação com os homens trans?

Não. E isso foi um problema, porque eu não conseguia me ver como eles. Eu via como eles falavam sobre eles mesmo, como eles tinham se descoberto e eu dizia: 'ainda não é isso'. E essa situação me deixou mais frustrado, porque eu não sabia que pessoas não-binárias existiam, porque para mim era aquilo 'ou você é homem ou você é mulher'. Mas se eu não sou uma mulher e nem um homem, eu sou o quê? Lembro que antes de o Téhh Queiroz se declarar homem trans, eu vi que ele tinha dito que era não-binário. Depois, assisti a um vídeo da Hugo Nasck, que é uma pessoa não-binária, e um desses vídeos ela fala o que é uma pessoa não-binária. E ele me esclareceu muita coisa. Eu entendi que não precisava me enquadrar naquilo que a sociedade impõe.

- Como foi se descobrir não-binário? 

 Foi libertador.

- Até porque, apesar de rejeitar os rótulos, existia um nome para você dizer ao mundo o que é, né?

É, porque as pessoas acham que é coisa da sua cabeça, que você está confuso. É quase a mesma coisa que os bissexuais passam quando falamos sobre orientação sexual. Dizem que eles estão indecisos, que não sabem o que querem. No nosso caso, falam que a gente não sabe quem a gente é, que é só uma fase. Não é uma fase, não está indeciso, a gente é assim.



- Você é uma pessoa não-binária e se identifica como transmasculinou ou demiboy... O que quer dizer?

Demiboy quer dizer parcialmente masculino. A minha expressão de gênero (o gênero com o qual me expresso na sociedade) é totalmente masculina (não confundir com identidade de gênero, que é não-binária). A maioria das pessoas não conseguem me ver como pessoa não-binária por causa da minha aparência. Mas eu tento fazer com as pessoas entenderem que eu não sou um homem, que eu sou muito mais do que as pessoas estão vendo, que tem algo a mais por dentro. A aparência é só a capa, o conteúdo é maior do que aparenta. Eu não consigo me ver sendo um homem de fato.

- Como tratar uma pessoa não-binária numa língua portuguesa dividia por dois gêneros?

Tem gente que prefere a linguagem neutra. Tem gente que prefere que trate no masculino e no feminino na conversa inteira. Tem gente que prefere que trate só no feminino. E eu prefiro que me trate só no masculino, porque não consigo ver outra maneira de me tratar para me sentir bem.

- De qualquer maneira, vale sempre perguntar para a pessoa como ela gostaria de ser tratada, tratado, tratade, etc...

Certo!

- Como foi contar para a família que você é não-binário? 

Difícil. A minha mãe fala que matei ela por partes. Primeiro quando eu falei da minha orientação sexual e, depois, ela diz que eu soltei essa bomba no colo dela. Ela falou que isso não existe. A minha mãe diz que seria mais fácil se eu dissesse: 'mãe, eu sou um homem'. Na cabeça dessa, ela ia entender: 'minha filha está virando um homem'. Mas como ela não pode pensar isso, ela pensa: 'Quem é? O que a minha filha, no caso, está se tornando?". Ela diz que não me conhece, que não consegue entender, não consegue saber como foi que eu cheguei a esse ponto. Sendo que não é nada demais. É somente eu sendo eu. 

- Você escolheu dois nomes masculinos. Como foi? 

João foi o nome do meu avô por parte do mãe, porque eu não conheci a família do meu pai. Foi uma das poucas referências masculinas que eu tive e que realmente gostei de conviver. Quis fazer essa homenagem para ele. E Daniel porque eu ganhei uma boneca da madrinha da minha irmã, mas eu não queria que fosse uma boneca, eu queria um boneco. Aí eu dei o nome para ele de Daniel. Daí decidi juntar esses dois nomes que gosto muito. 

- Em relação à orientação sexual, como você define?

É uma questão que as pessoas sempre me perguntam. E eu só respondo que eu gosto de mulher, eu não consigo dizer que sou hétero, porque não me considero um homem. E não consigo dizer que sou lésbica, porque não me considero uma mulher. Então só falo que gosto de mulher. 


- O que poderia dizer sobre sua experiência no trabalho? 

A minha chefe é evangélica, mas tem uma mente muito aberta. Eu consegui conversar com ela, ela entendeu e disse: 'Por mim, tudo bem'. Tanto é que o meu caixa é aberto no meu nome, João, só não cabe o Daniel. Algumas pessoas não sabiam que eu era trans, algumas pessoas achavam que eu era gay. Os caras não gostava de usar o banheiro comigo. Depois, quando eu comecei a falar para as pessoas que eu não sou gay, não sou cis, sou uma pessoa trans, eu gosto de mulher, foi diminuindo isso. Os caras foram me tratar de maneira melhor... Começaram a falar de mulher, de futebol, tipo 'beleza você não ser gay'. 

- Já não gosto dessas pessoas, que podem não ser transfóbicas, mas são homofóbicas (risos). 

Eu só converso o básico por conta do trabalho. 

- Você também é escritor. Tem colocado as suas vivências não-binárias nos seus textos? 

Eu tento. Ano passado eu fiz um vídeo que fala mais sobre homens trans, porque estava convivendo com muitos. Tenho vontade de falar sobre mulheres trans, pessoas não-binárias. Eu sinto que antes eu escrevia para as outras pessoas e hoje, depois que me descobri não-binário, escrevo para mim. Eu gosto de me ver naquilo que estou escrevendo. Hoje em dia os meus poemas me representam, estão contando a minha história. Não preciso esconder na história de outras pessoas, eu posso contar a minha. Desde pequeno eu sonho em escrever um livro.

- A militância trans binária ainda tem resistência às não-binárias?

Tem. Somos trans do mesmo jeito, a gente divide a mesma letra, estamos na mesma sigla. Um homem trans pode não me representar, mas ele não está desmerecendo a minha luta, manchando a minha imagem. Mas isso é o que muitas pessoas trans binárias acham, que a gente tá querendo manchar a imagem deles. Mas isso é algo ridículo. Nós só estamos sendo quem nós somos. Mas é importante dizer que não é todo mundo que diz isso. Tenho vários e várias amigas trans binárias que me respeitam. 

- Hoje você está satisfeito com a parte externa e a sua identidade?

Antes de me descobrir, eu tirava pouquíssimas fotos, porque eu não conseguia me olhar e falar: 'estou bonito'. Agora não posso ver uma oportunidade que estou tirando foto (risos). Porque eu me sinto muito bem comigo agora. Está tudo ótimo aqui, valeu tudo a pena. Tudo o que passei, as coisas que eu já escutei e o que escutei, não são nada perto do que eu sinto agora que estou de bem comigo mesmo. Que eu olho no espelho e digo: sou eu. Eu me vejo, me entendo e tanto faz o que as pessoas pensem de mim.


Uma curiosidade: chegou a encontrar aqueles dois homens cis da religião que deram o toque sobre sua identidade? 

Depois que voltei para o terreiro, ele disse: "Você viu, entendeu, né?". O outro, que queria saber o meu nome de tio, também me perguntou: "Agora me fala qual é o seu nome?". No dia, eu acabei chorando. Fiquei, tipo: "Agora sei o que eu sou". Ele me disse várias coisas que eu guardo para mim. Eu fui muito bem recebido na minha religião, no meu terreiro. Eles nunca tinham lidado com uma pessoa trans e lidam da melhor maneira possível. 

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