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Homem trans Fernando Lorenzzo junta dinheiro em pote durante três anos para realizar sonho


Por Neto Lucon

Fernando Lorenzzo Zardini, de 38 anos, chamou atenção de diversos homens trans nas redes sociais ao mostrar a realização de dois sonhos: o da mastectomia (cirurgia que masculiniza o peitoral) e de chegar até ela por meio de um método clássico, mas pouco usual. Ele juntou o dinheiro em um pote - na verdade, uma garrafa de água de plástico de três litros - durante três anos.

“Assisti ao desenho UP, Altas Aventuras. E nele um casal tenta realizar o sonho de viajar, juntam o dinheiro em um pote de vidro e nunca conseguiram. Foi aí que tive a ideia do pote de dinheiro”, afirma ele, que mora em Campinas, município de São Paulo. Fernando passou por diversas profissões, trabalhos, casas e resistiu aos preconceitos até chegar na quantia de R$ 9.700,00.

Ele conta que a vontade de realizar a cirurgia surgiu depois de perceber que era trans, aos 30 anos. O start veio por meio de um documentário da Discovery sobre crianças trans, que o levou a fazer pesquisas no Google e acompanhar a transição do homem trans Balian Buschbaum, que é alemão. As vontades para o próprio corpo e a própria vida começaram a ser mais visíveis e ele esteve diante da verdadeira identidade.

“Quando vi a repórter perguntando para a menina trans se ela acreditava em Deus, ela respondeu que não, porque se Deus existisse ele não teria colocado ela no corpo errado. Comecei a chorar, porque era o que eu pensava quando era pequeno. Eu sempre perguntava porque Deus me odiava e me fez nascer naquele corpo. Naquela noite nem dormi direito pesquisando sobre o assunto e vendo filmes. Me deu uma sensação de euforia”, afirma.

Porém, revelar ao mundo que é um homem trans e iniciar a transição que gostaria não foi tarefa simples. Em 2014, chegou a terminar um relacionamento, porque a esposa não queria que ele começasse a hormonioterapia. Em 2015, iniciou a transição, fazendo com que ele conhecesse na pele os desafios de viver em uma sociedade transfóbica e as dificuldades de se inserir no mercado formal de trabalho e de levantar o dinheiro necessário para a realização dos seus sonhos.

TRABALHO VERSUS TRANSFOBIA

Fernando conta que ainda trabalhava e morava com a irmã quando iniciou a hormonioterapia. Porém, quando a barba começou a crescer e a voz mudar, um gerente o perseguiu e o mandou embora. “Eu tinha juntado um pouco de dinheiro e não queria gastar, então comecei a trabalhar no que aparecesse”, diz.

Ele passou a morar na casa de uma prima e trabalhou na marcenaria administrada por ela. “Montei móveis, fazia faxina, trabalhei em transportadora e até catei latinhas para vender e não precisar usar o meu dinheiro guardado. Fiz várias entrevistas, mas não passava quando as pessoas viam minha aparência masculina e os documentos femininos”, lamenta, ressaltando que o fato de ser trans pesava mais que a bagagem profissional.


Em 2017, conseguiu sentença favorável para retificar o prenome e gênero da documentação por meio da Defensoria Pública. Finalmente pôde se recolocar no mercado de trabalho em um empresa de telecomunicações. “No ano passado, eu trabalhei muito, fiz várias horas extras e guardei tudo que podia”, conta.

Ele destaca que na empresa apenas três pessoas sabem que ele é homem trans - uma decisão interna com a finalidade de evitar constrangimentos e preconceitos. “Apesar de ainda ter seios, eu usava binder (uma faixa elástica que aperta o peitoral) para disfarçar o volume, o que me causava muitas dores e incômodo”. A cirurgia, portanto, se fez cada vez mais necessária para ele.

ECONOMIZAR DINHEIRO

Foram três longos anos juntando dinheiro e “se segurando para não gastar”. “Foi bem complicado, porque hoje vivo sozinho. Precisei abrir mão de sair, não tenho televisão, nem máquina de lavar. Faço tudo sozinho e estou mobiliando a casa aos poucos. Aí sempre ficava a dúvida se guardava para a cirurgia ou se comprava as coisas”.

A economia foi um desafio pessoal, uma vez que ele admite que já começou vários projetos, mas que deixava no meio do caminho. “Sempre abri mão das coisas e deixava para depois. Recomecei várias vezes, morei em Minas, Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo. Sempre deixando de fazer as coisas. Sempre adiando meus sonhos”.

Na animação Up, um casal de senhores junta o dinheiro em um pote de vidro, mas não consegue realizar o sonho da viagem juntos, pois a esposa morre antes do objetivo se concretizar. 
Fernando diz que temeu nunca conseguir realizar o seu sonho, que colocou o pote como uma meta que precisava ser cumprida e que ele era o dono do seu futuro.

A escolha da garrafa de água para colocar foi para que ele pudesse ver o dinheiro e se incentivar. Tanto que deixava no alto da estante para que pudesse ver todos os dias. Mensalmente ele enchia o pote com 100 ou 200 reais, além de colocar todos os trocos e moedinhas. "O
 13º foi quase todo para o pote", conta ele, que evitou contar o dinheiro ao longo do processo para não pensar no valor o tempo todo.

“Sempre pensei que precisava fazer isso. Eu sentia como homem que precisa cumprir sua meta. Fazer algo por mim que ninguém mais poderia. O dia que consegui foi muito feliz, porque não foi só um sonho que realizei. Foram dois. Cumprir com minha meta pessoal, trabalhar o autocontrole e, de quebra, dar esse passo tão importante para a minha vida”, lembra. 


Ele conta que passou a estudar a lei da atração e que aprendeu a mentalizar positivo. "Visualizar todos os dias meu quadro dos sonhos era fundamental. Fiz um slide de Power Point e deixo de abertura no computador com tudo o que desejo. Visualizar todos os dias meus objetivos foi importante", dá a dica

O SONHO NÃO ACABA

Em março, atingiu o valor necessário para a cirurgia, que foi realizada na segunda-feira (09) com o cirurgião Erick Carpaneda, em Brasília. Fernando conversou com a gente após o procedimento, na terça-feira (10). “Minha cirurgia foi boa. Mas sinto muita dor. Como foi ontem, então não dá ainda para mexer os braços e até respirar dói”, diz.

Após a recuperação, ele planeja usar camisas mais justas e poder andar de peito aberto ao ar livre. Fernando diz que apesar de todas as transfobias enfrentadas – a família ainda o trata pelo nome feminino, por exemplo – ele se sente mais feliz e livre desde quando iniciou a transição. “A única coisa que me arrependo é de não ter começado antes. Ter me descoberto antes”.

Para quem pensa que o sonho foi realizado e que este é o fim, está muito enganado. Além de conseguir uma bolsa de 70% de desconto para a faculdade de Engenharia Ambiental, ele destaca outro projeto para o futuro: “Minha próxima meta é comprar um terreno e construir uma casa”. O pote vai precisar ser maior, dissemos. "Vou precisar de um barril", brinca ele. Ou não... 

Parabéns, boa recuperação!


* Quem se inspirar na história e quiser juntar dinheiro para a cirurgia ou outro projeto, é preciso se atentar em guardá-lo em um lugar seguro em que não haja a tentativa de furto ou roubo. Você pode fazer isso em seu banco, separando o dinheiro destinado ao projeto, ou em um lugar que não seja de fácil acesso a terceiros. 

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