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Cantora e militante trans, Renata Peron é pré-candidata a deputada federal pelo PSOL- SP


Por Neto Lucon

A militante, cantora e assistente social Renata Peron, que é uma mulher transexual, anunciou no início de maio a pré-candidatura a deputada federal pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) em São Paulo. Em seu discurso, ela defende a TRANSformação do Congresso Nacional, a importância da representatividade LGBT, sobretudo trans, nesses espaços para promover a luta em prol dos direitos LGBT e contra o conservadorismo.

“Penso em mudanças concretas, em mudanças da própria legislatura brasileira. E se no serviço social eu não posso fazer isso, porque eu sou assistente, eu tenho que ir para um cargo político de legislação. Quero mostrar para a sociedade que uma travesti ou transexual pode estar em qualquer lugar, inclusive no Congresso Nacional”, afirmou ela ao NLUCON.

Renata é paraibana radicada em São Paulo, cantora de música popular brasileira, militante LGBT e recepcionista da SP Escola de Teatro. Em 2015, tornou-se presidenta da ong CAIS - Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais. Ela conhece as demandas da população LGBT, tanto por participar do movimento quanto por vivenciar na pele a discriminação. Tanto que em 2007 foi agredida por nove LGTFóbicos no centro de São Paulo e perdeu um rim.  

Ela alega que uma das motivações que a fez aceitar ser pré-candidata é o avanço do fundamentalismo religioso e o conservadorismo na política. “Eles só sabem atacar a comunidade LGBT, mas não apresentam nada de benéfico. Agora, eles se organizam para eleger mais 150 deputados com essa proposta conservadora. Se a gente já está sofrendo perseguição dos que já estão, imagine como vai ficar essa bancada da Bíblia? É por isso que tomei a decisão de sair pré-candidata. É por isso que a nossa comunidade tem que se conscientizar para eleger uma lésbica, gay, travesti, transexual, intersexo queer...”.

Segundo a pré-candidata, há diversos direitos que a população LGBT ainda precisa alcançar, bem como ações que impeçam, combatam e intimidem a violência LGBTfóbica, que traz números alarmantes de assassinatos por LGBTfobia e que coloca a população de travestis e transexuais numa baixíssima expectativa de vida: 35 anos. Renata aponta que duas grandes vitórias para a comunidade LGBT – o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo/gênero e o direito de pessoas trans poder retificar o nome e gênero da documentação diretamente no cartório – não vieram do Congresso, mas do Supremo Tribunal Federal. "Então precisamos transformar esse congresso”.

Cantora de música popular brasileira e atriz, ela diz que também pensa em propostas para o cenário artístico, que por sua vez também vem sendo alvo do conservadorismo. “Tivemos o fechamento da exposição do museu Queer, tivemos um limite de idade imposto para ingressar na exposição sobre sexualidade no Masp, teve a atriz Renata Carvalho censurada no teatro por ser travesti... Então vamos lutar para que o conservadorismo não consiga chegar, para que haja um contrapeso e o confronto”, afirma. “Também queremos o desmonte da política da cultura, o fortalecimento do Ministério da Cultura, com apresentações de propostas para o aumento do orçamento e a manutenção dos pontos de cultura, pois há vários que estão sendo proibidos”.

A pré-candidata declara que escolheu o PSOL por acreditar ser o partido que mais se identifica e acolhe a diversidade. “Eu sou uma pessoa livre e que quer ser respeitada pelos meus pensamentos, por ser uma mulher trans e de não ser estigmatizada ou discriminada. Quando você tem um partido que acolhe a sua diferença e respeita você enquanto ser humano, é um partido que merece meu respeito e que eu devo estar nele”. Além disso, ela afirma que se trata de um partido de esquerda, que dialoga mais abertamente com as causas sociais.


Durante o lançamento da pré-candidatura


COMO ENFRENTAR A TRANSFOBIA NA POLÍTICA

Renata afirma que, por ser uma mulher trans, deve enfrentar resistência nas urnas. “A sociedade ainda se assusta quando veem uma mulher trans como uma pessoa pensante, pois sempre nos viram como pessoas que são marginalizadas, de maneira caricaturada pelos programas de TV”. Além disso, ela aponta para a dificuldade da população entender que uma pessoa possa representar a própria causa e não ficar sempre confiando que outra, que não vivencie e precise das demandas, possa fazer algo.

“Nós vemos que mulheres ainda não votam nas mulheres, que negros também não votam, caso contrário a representatividade fosse diferente. A casa do povo é feita por 513 homens brancos heternormativos, com um gay querendo fazer nossas pautas avançarem. Então com as transexuais não seria diferente, então a dificuldade nas eleições surge por não conhecermos direito a política ou por não entender que a representatividade é importante. E é fundamental que mulheres travestis, transexuais, comunidade LGBT, quilombolas, negras e negros, deficientes físicos sejam representados. Isso não quer dizer que uma pessoa que não seja LGBT não possa somar à luta, mas só que quem sabe das nossas dores somos nós mesmas. E que precisamos de um diálogo maior".

Porém, diz que está disposta a reverter a transfobia que permeia o imaginário. “Não há mágica ou milagre para conseguir mudar o pensamento. Mas com conteúdo e muito diálogo eu posso fazer isso. Sendo eu mesmo, Renata, uma mulher trans que prima pelo respeito ao próximo e que exige ser respeitada. Quero que ter um diálogo de política que chega até a pessoa, que não me veja apenas como trans, mas que se atente para a proposta que eu tenho a oferecer”.

O lançamento da pré-candidatura ocorreu no início de maio no Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt, em São Paulo. Foram mais de 80 pessoas que estiveram presentes, dentre elas 20% de pessoas trans e travestis e pessoas do cenário político, bem como o vereador  cisToninho Vespoli e o deputado estadual cis Carlos Giannazi, e de militância. “Foi uma coisa extraordinária. Agradeço ao universo por começar a trabalhar na nossa comunidade LGBT, principalmente a trans, que a representatividade é importante, sim. E que depois que passar as eleições e se a gente não conseguir de novo eleger ninguém, não vai adiantar reclamar quando vierem com o desmonte dos poucos direitos que conquistamos”.

O PSOL ainda fará o lançamento oficial das candidaturas, mas não há data definida. A campanha só deve começar em agosto.

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