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Casal gamer Mariana Lessa e Ulisses Perez supera perfil fake, transfobia e se casa: "Somos uma ótima dupla"


Por Neto Lucon
Fotos: Amanda Sobral


A professora trans Mariana Lessa Palacio, de 32 anos, casou-se no sábado (19) com o farmacêutico cis Ulisses Perez da Silva, de 27, em São Roque, município de São Paulo. Eles confirmaram a união marcada por muito amor, cumplicidade, jogos virtuais e até militância trans. Tanto que o vestido de Mariana foi inspirado nas cores da bandeira trans e também em um Pokémon Sylveon, que representa a comunidade trans. 

“Quis vir com as cores rosa, branco e azul, porque a minha militância é no dia a dia. Muita gente só me conhece enquanto pessoa trans e todos me respeitam. Então quis carregar essa bandeira em mim. Já o Pokémon é devido a poética que envolve. Sylveon foi criado através da evolução de outro Pokémon, que só evolui quando chega na felicidade plena da vida. Ou seja, tem tudo a ver com a minha história e do que eu passei na minha vida.”, afirma ao NLUCON.

Mariana afirma que o casamento é a realização de um sonho que jamais pensava em realizar de fato. Tanto pela sua trajetória pessoal, que envolveu depressão e a falta de entendimento de ser uma mulher trans, quanto pelas transfobias incentivadas pela sociedade na afetividade. “A sociedade coloca em cima das pessoas trans que não podemos casar, não podemos ser assumidas para a família, não podemos ter filhos, não podemos prosperar. Então nunca pensei que pudesse me casar por causa disso. É por isso que eu gostaria de falar: pode aparecer gente legal, sim, podemos realizar nossos sonhos”, declara.

O noivo Ulisses afirmou que o casamento foi um momento inesquecível e prazeroso para ele, sobretudo pela oportunidade de dividir esse momento tão importante de sua vida ao lado dos familiares. “Adorei, deu tudo mais certo do que eu esperava. Foi bem cansativo os preparativos, mais da parte dela. Mas foi um dia gostoso para mim com todas as pessoas importantes e dividir aquele momento inesquecível”, diz.

O casamento ocorreu no único cartório de São Roque às 11h da manhã. Os familiares dos dois noivos compareceram e testemunharam a união. Logo depois, eles saíram com a certidão de casamento em mãos para uma confraternização em uma churrascaria. No período da tarde, conversaram com o NLUCON. “Até daria para casar na igreja, porque eu conversei lá e eles disseram que, como eu já troquei o nome, a igreja reconhece. Mas optei por não casar na igreja porque preferimos guardar aquele dinheiro para uma viagem só nós dois”, contou Mariana.





“EU USAVA UM PERFIL FAKE E ELE DESCOBRIU”

A história de amor de Mariana e Ulisses foge de qualquer enredo tradicional. Eles se conhecem há 12 anos e o primeiro contato ocorreu por meio do jogo online World of Warcraft. Naquele período Mariana não havia revelado ao mundo que é uma mulher trans – na verdade, nem ela sabia ao certo – e usava um perfil feminino fake. Todos do grupo acreditavam que aquela mulher cis da foto, que na realidade era sua prima, era de fato ela.

“Eu vivia a personagem feminina e ele foi acreditando que eu realmente era uma pessoa que eu não era. Ficou nisso mais ou menos uns cinco anos, mas a gente não namorava, só conversava no jogo. Aliás, você não imagina o quanto de gente que joga em jogo online e que vive essa vida. A gente usa o computador como fantasia, um jeito de esconder do mundo para se aceitar e ao mesmo tempo não se aceitar” conta.

Certo dia, Mariana fez uma maquiagem e a marcaram em um vídeo nas redes sociais. A postagem caiu como uma bomba, pois identificaram a voz dela, mas viram que a imagem não correspondia. “As pessoas que jogavam com a gente me reconheceram e mostraram para ele. Veio à tona que eu era um menino, pois naquela época era assim que me identificava, e que não era a garota da foto. Um monte de gente acabou comigo e eu sofri muito preconceito”.

Mariana perdeu vários amigos, sofreu xingamentos e perseguições. Menos de Ulisses, que manteve a amizade. Ele explica que continuou conversando com Mari, pois percebeu que ela é uma pessoa que ele se identificava e que gostava de passar o tempo. “Não foi o fato de a identificarem com o gênero errado que faria mudar essa amizade”, diz.

DA AMIZADE AO NAMORO

Ulisses mostrou ser seu amigo num dos piores momentos de sua vida, quando todos viraram as costas após a descoberta, mostrando que era alguém em que ela poderia confiar. A amizade ficou cada vez mais forte e sincera. Mari já mandava algumas fotos para ele e mostrava que era, como ela mesma diz, “um menino mais mulher”, com traços femininos, apesar de não tomar hormônios.

“Embora meus pais sempre me apoiaram a ser quem eu queria ser, eu não conhecia o termo ‘trans’, não conhecia pessoa trans. Eu tinha atração por homens, era um menino bichinha, mas não frequentava o meio LGBT, não ia para balada. Com o tempo, passei pela psicanálise elevei o assunto e fui entendendo quem eu sou. Procurei médico, passei por endocrinologista e iniciei a minha transição”, afirmou Mariana.




Eles continuavam jogando por horas e intensamente. Mariana o considerava muito educado, sempre ajudando com desafios do jogo, a fazendo dar risada... “Foi assim que foi crescendo e surgindo. E foi amor mesmo, que chegou numa hora que eu não imaginava”.

Em 2012, eles resolveram se conhecer pessoalmente. Ulisses foi até São Roque e eles se deram muito bem. Mariana já se considerava bastante feminina, mas ainda atendia pelo nome masculino. O sentimento começou a se transformar e Ulisses acompanhou todos os processos de transição de Mari. “Percebi que estava apaixonado muito antes de saber a verdade, e depois de descobrir, já era tarde demais. Eu não me importei com nada, só queria estar junto dela”.

A professora revela que foi por meio dele que viu a oportunidade de ser feliz. “Naquela época, eu estava vivendo uma depressão muito profunda. Já havia tentado me matar três vezes e só pedia para morrer. Eu não queria ele muito perto, porque não acreditava que alguém pudesse gostar de mim. Mas ele insistiu muito e eu vi nele uma chance: será que vai dar certo? Eu dei a chance para ele, ele quis, eu quis”. Em 2012, eles começaram a finalmente namorar.

NAMORAR UMA MULHER TRANS / NAMORAR UM HOMEM CIS

Ulisses afirma que antes de Mariana falar sobre transexualidade não sabia nada sobre o assunto. Mas que não deixou a ignorância sobre mulheres trans atrapalhar no sentimento que estava vivendo. “No momento em que ela me contou, era um assunto novo e eu demorei um pouco para entender, mas isso foi apenas um detalhe, não fez diferença nenhuma”. Ele frisa que o melhor de tudo foi que sua família acolheu Mariana “de todo o coração”, fazendo com que “nada externo desse errado”.

O farmacêutico diz que o que mais gosta da professora é o equilíbrio que eles têm. “Ela me completa. Eu sou muito calmo e ela é a fúria em pessoa, aprendi muito com ela, e ela comigo, somos uma ótima dupla. Isso nos leva ao que mais gosto de fazer com ela, pegar uma madrugada e se aventurar por onde quer que seja no nosso mundo dos jogos, não importa qual, a gente sempre se diverte e passa raiva, é ótimo”.




Mariana conta que namorar um homem cis como Ulisses é bastante diferente. Tudo porque ele foge dos padrões “babacas” que se esperam de um homem cis hétero. “Ele é muito sensível, ele tem empatia, respeita as pessoas. Talvez por vir de uma família da área da saúde e que são pessoas que lidam com a vida, ele cresceu respeitando muito a vida. É claro que ele também é chato e bagunceiro, mas não dá para ver nada de errado nele. E não falo só porque ele é meu, ele é maravilhoso com todo mundo”, afirma.

Uma das coisas que ela adora fazer com ele, além de jogar, é assistir RuPaul’s Drag Race. “A gente devora, gosta de ver os vídeos, a vida delas. Antes ele não conhecia a cultura LGBT, mas hoje ele curte”.

ENFIM, JOGANDO LADO A LADO

Após iniciar o namoro, eles ficaram cinco anos se relacionando à distância. Ele havia acabado de entrar na faculdade de Farmácia e combinaram que assim que terminar, eles se casariam, pois Mariana conseguiria um emprego para ele em São Roque. E foi exatamente assim que aconteceu.

“Passei o namoro com ele indo pra São Paulo e ele vindo para São Roque, todos os fins de semana. A gente criou uma intimidade bem grande mesmo e muito rápido. Quando ele se formou, eu fui em todas as farmácias com o currículo dele. Daí a filha da moça que ajuda a minha mãe a limpar a casa, levou o currículo e ele começou a trabalhar no começo do ano”.

Eles moram juntos com a mãe da Mariana, que afirma ser completamente apaixonada por Ulisses. “É como um filho dela. Pretendemos continuar morando com a minha mãe, pois é muito especial, é muito amorzinho ao mesmo tempo em que a gente tem a nossa privacidade em casa”, pontua.

Casadíssimos, Mariana e Ulisses conseguiram driblar todas as adversidades, saíram do mundo virtual para o real e continuam jogando juntos. “Mas agora sentados um do lado do outro, o que é muito melhor”, conclui Mari.



Ela deixa uma mensagem para outras pessoas trans que acompanharam o texto até aqui: “Que a história sirva de empatia, inspiração e que aflore muitos sonhos. Não precisamos viver abaixadas em um carro escuro para nos relacionarmos. Não precisamos viver uma identidade que não condiz com o que somos. Temos que botar a cara no mundo e enfrentar. Sinto que esse enfrentamento é o que falta em muita gente. É claro que muita gente sente medo do que pode acontecer, mas precisamos ter coragem para não morrer na tristeza. Não é isso que eu queria e não é isso que as pessoas querem. Temos futuro, temos sonhos e podemos realizar”.

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