Header Ads

Como seria se o príncipe Harry quisesse se casar com uma mulher trans?


Por Neto Lucon

Diante da repercussão mundial do casamento entre o príncipe cis Harry e a atriz norte-americana cis Meghan Markle neste sábado (19) na Capela São Jorge, no castelo de Windsor, resolvemos lançar uma pergunta: como seria se o príncipe se apaixonasse e quisesse se casar com uma mulher trans?

Conversamos com alguns monarquistas e especialistas que, ao serem questionados, ficaram surpresos e admitiram não fazerem ideia de como uma pretendente trans mexeria com a realeza mundial. Tudo porque a população trans ainda é considerada tabu para a família real britânica e a invisibilidade ainda é constante.

Há relatos na história de personagens da realeza que tenha se revelado em algum momento trans. Na Renascença, por exemplo, a rei Henrique III de França pedia para ser referenciada como Sa Majeste (sua majestade, no feminino), há registros de que chegou a se identificar enquanto mulher e se apresentou com um vestido curto e colar de pérolas aos deputados. Porém, na história contemporânea e na monarquia britânica, não temos um único exemplo de realeza que seja trans. Pelo menos não publicamente.

Trata-se de um sistema cercado por tradições, normas e dogmas históricos, que muitas vezes, dependendo das interpretações, demonstram pré-conceitos e comportamentos estereotipados. Afinal, se o próprio casamento com Meghan, uma mulher cis, já gerou polêmica por ela ser divorciada, de origem negra e estar distante dos protocolos esperados, tendo que correr atrás para atendê-los, imagine todos os preconceitos e tabus enfrentado por uma mulher trans, que rompe com diversos padrões somente pela característica trans?

Uma mulher trans foge dos debates tradicionais da própria concepção do que é ser mulher, das normativas do que pode ou não pode fazer uma mulher, do rompimento com a heterocisnormatividade tão valorizada pela monarquia e da ressignificação da família nuclear britânica. Somente por ser trans já haveria resistência. Caso ela seja negra, de família que não tenha títulos, seja divorciada, estrangeira, gorda, pobre, tenha alguma deficiência e todas as características que a distanciam do padrão “bela, recatada e do lar” a colocariam ainda mais distante da possibilidade de se casar.

Todas essas questões fazem refletir sobre a presença da mulher, seja ela cis ou trans, dentro deste modelo. Também de como a afetividade trans é absolutamente descartada e invisibilizada, como se nem pudesse ser uma possibilidade. 


O relacionamento de um príncipe cis com uma mulher certamente geraria um debate interno na realeza, com muita resistência para que não caísse na imprensa. Talvez houvesse ameaças, tentativas de esconder a transgêneridade, desculpas transfóbicas sobre não poder oferecer herdeiros naturais... Caso vazasse, a imprensa noticiaria com grande sensacionalismo. Isso porque, independentemente de haver pessoas que sejam a favor da união e mais sensíveis aos direitos humanos, sabe-se que há muito conservadorismo e resistência. Até mesmo porque envolveria a religião na cerimônia. A incógnita se mantém ao verificar que não há discursos públicos da família real sobre a população trans especificamente.

Sabe-se, por exemplo, que a rainha Elizabeth já demonstrou apoio à diversidade e até assinou um documento que validaria o casamento entre pessoas do mesmo sexo/gênero na Inglaterra e País de Gales. Porém, o posicionamento dela já teve duas versões dadas para a imprensa. Uma de que teria dito ao ator Stephen Fry que a união gay era algo inesperada e maravilhosa. Outra, anunciada pelo Daily Mail, que considerava algo muito errado e que só poderia alertar que o casamento é entre homem e mulher. Além disso, nunca falou sobre pessoas trans.

Lembrando que o casamento entre pessoas do mesmo sexo (o casamento gay) não é aplicado no possível caso entre uma mulher trans e um príncipe cis. Afinal, seria um relacionamento heterossexual (ela é do gênero feminino e ele masculino, independentemente dos genitais e do preconceito da sociedade transfóbica). Mas poderia ser aplicado legalmente, caso ela não tivesse retificado o nome e gênero da sua documentação. Também podemos cogitar o casamento do príncipe com um homem trans, com uma pessoa não-binária, com um homem cis... Ou até mesmo de um príncipe que revelasse que na verdade é uma princesa e é uma pessoa trans... São tantas possibilidades frente ao único modelo cisheteronormativo, né?

Diante das reflexões, o casamento em questão parece pouco provável nos dias de hoje, ainda marcado pelo conservadorismo e pela forte transfobia. Mas talvez possa ser uma possibilidade real daqui a alguns muitos anos (esperamos que no futuro alguém leia esse texto e veja a demarcação e limitação histórica que vivemos). Pelo menos os príncipes Harry e William demonstram terem mais afinidade com a comunidade LGBT. William chegou a participar de uma campanha contra o bullying LGBT, já Harry salvou um soldado gay de um ataque de seis homofóbicos no Canadá em 2008 e participou de eventos LGBT, lembrando sua mãe, Diana. Mas ainda falam sempre do outro, nunca de si. Que as novas gerações estejam mais abertas.

De qualquer maneira, caso o casamento realmente acontecesse, seria uma verdadeira quebra de estruturas. Não somente dentro da monarquia, cujo modelo seria ressignificado, atualizado e transformado positivamente, inclusive beneficiando os casais cis que em algum momento fogem das regras. Mas também teria um impacto significativo na concepção da sociedade sobre pessoas trans. O debate da transfobia estaria em alta, bem como os direitos das pessoas trans, a afetividade envolvendo pessoas trans. Mais que vestidos e a cerimônia, levantaria também o debate do título que ela receberia e das funções que teria enquanto princesa, condessa... Haveria muitos ataques, posicionamentos contrários, mas muitas defesas e o uso do casal como referência e possibilidade. 

Além disso, valeria muito acompanhar o casamento de uma princesa trans e de um príncipe cis, seja pela televisão ou pessoalmente. Talvez fosse uma das maiores revoluções dentro deste sistema. Afinal, sempre dizem que a revolução será trans e ela pode ser mesmo. No caso, sem guerra, mas com muito amor e uma boa pitada de transgressão.

Um comentário

Anônimo disse...

O principe não é gay para casar com outro homem, mesmo se esse estivesse vestido de mulher sempre será homem, pessoas trans são apenas doentes mentais! A sociedade é heteronormativa pq isso é o normal, as aberrações são as que vc defende!

Tecnologia do Blogger.