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Escritora e dramaturga trans, Ave Terrena lança livro de poesias "Segunda Queda"


Por NLUCON
Foto: Camila Falcão


Segunda Queda”. Este é o nome do primeiro livro da dramaturga, performer e escritora Ave Terrena Alves, que é uma mulher transvestigenere, pela editora Kazuá. O lançamento ocorre nesta quarta-feira (30), às 19h, no Espaço Cultural Kazuá (R. Ana Cintra, 26, Campos Elíseos), em São Paulo, com atrações especiais.

O livro, cujo projeto foi vencedor do PROAC – Poesia na edição de 2017 - traz ilustrações e textos de Ave Terra da adolescência até os dias de hoje. São 82 páginas de vivências e reflexões enquanto pessoa transvestigênera sobre diversos assuntos que a cerca. É dividido em duas partes: A Casa é Aqui / e vá pro olho da rua traaa.

O tema “queda” é refletido e escrito pela autora de diversas maneiras. Seja trazendo referência às duas agressões sofridas em espaços públicos da cidade, uma aos 17 e outra 24 anos, ou então lendo relatórios da Comissão Nacional da Verdade (órgão que investigou as violações dos direitos humanos na época da ditadura militar), como a Operação Tarântula (que nos anos 80 prendia e torturava travestis que circulava em ambientes públicos), além da deposição da ex-presidenta Dilma Rousseff.

“Apesar de tudo, também vejo a queda como cura e não simplesmente como destruição. Reflito sobre como buscar sobrevivência dentro de tanta dificuldade. A queda sempre foi vista no ocidente como algo produzido por forças do mal. Tento me aproximar desse tópico pelo avesso para encontrar uma reexistência”, declara.

A escritora aborda e escreve ainda a vida fragmentada pelo ambiente urbano, as conexões diárias com o outro, a tecnologia tomando conta do conteúdo e das formas de se relacionar, o amor que se modifica inteiramente durante o processo de autoidentificação, a xenofobia da cidade de São Paulo em relação a outros estados brasileiros, a problemática da divisão injusta de classes sociais no Brasil, a repressão social e individual, violência, sexo, falocentrismo e a identidade nacional fragmentada do povo brasileiro.

Sobre a escrita, Ave também traz transgressões aos padrões da norma considerada culta, trazendo palavras abreviadas, textos redigidos na internet. O objetivo é utilizar da informalidade como um recurso para manter vivo os significados íntimos e também buscando ressaltar a oralidade e preservar conhecimentos ligados à narratividade. Também há pajubá – o vocabulário inspirado nas línguas africanas e indígenas utilizada como linguagem cifrada pela população de travestis e também por parte da comunidade LGBT.


A epígrafe do livro é um trecho do livro Queda Para o Alto, de Anderson Herzer (1962-1982), escritor e poeta trans que cometeu suicídio ao 20 anos. O prefácio é de Erika Hilton, ativista, pensadora contemporânea, mulher negra, trans e estudante de gerontologia pela UFSCAR. Já o projeto visual do livro é em parceria com o designer gráfico Kako Arancibio. “Os desenhos não são subservientes ao texto, mas estão em diálogo. No livro, há duas autonomias”, declara.

LANÇAMENTOS

Nesta quarta-feira (30), o lançamento às 19h, conta com performances artísticas da cantora Valéria Houston, da atriz Veronica Valenttino e da cantora e atriz Danna Lisboa. Ocorre no Espaço Cultural Kazuá (R. Ana Cintra, 26, Campos Elíseos), em São Paulo.

Já no dia 2 de junho, às 21h, haverá uma performance baseada no livro antes da sessão de “As 3 Uiaras de SP City”, peça de teatro escrita por Ave, que estará em cartaz no Centro Cultura São Paulo, (R: Vergueiro, 1000, Liberdade).

O livro custa R$40. Pessoas trans terão direito a pagar por metade do preço original (ou seja, pagam R$20) de Segunda Queda ao se autodeclararem trans no momento da compra do livro, como política de inclusão promovida pela editora.

Valeria, Danna e Veronica fazem performance no lançamento

Sobre a autora

Ave Terrena Alves é dramaturga e poeta transvestigênera, integrante do grupo de teatro Laboratório de Técnica Dramática desde 2015. Sua pesquisa sobre os relatórios da Comissão Nacional da Verdade foi contemplada pelo 4o Prêmio Zé Renato, resultando na peça "O Corpo que o Rio Levou". A continuidade da pesquisa sobre a ditadura militar levou Ave a investigar as operações de perseguição às travestis ocorridas na década de 80, resultando no texto "as 3 uiaras de SP city", que foi um dos vencedores da IV Mostra de Dramaturgia do Centro Cultural São Paulo (CCSP). A estreia acontece no dia 18 de maio. Integrante do projeto de intercâmbio teatral "Lugar da Chuva", a dramaturga passou dois meses em residência artística na cidade de Macapá. Sua peça "O Amor Canibal" foi publicada em antologia pela editora do SESI, como conclusão do Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council. Universitária do curso de Letras na USP.

Sobre a editora Kazuá

A Kazuá, que no dialeto africano significa “casa”, é uma editora presente há sete anos no mercado editorial que tem como enfoque principal conferir às obras e aos autores e autoras o devido reconhecimento. Com mais de 200 títulos publicados, acreditamos que cada livro, em si, contém um segredo, um mistério, um modo próprio de solucionar e significar sua publicação. Cada título, para nós, representa uma obra de arte. Para a concepção gráfica das publicações, buscamos sempre entrelaçar artes visuais e escritas, conferindo a cada livro um sentido único e original. Tendo como norte a inclusão, apresentamos diálogos que conversem com a sociedade e promovam debates acerca de temáticas relevantes aos âmbitos social e cultural. O que mobiliza nossa equipe é conhecer a intimidade de cada livro e propor o processo mais adequado para publicá-lo, levando, também em consideração, a posterior colocação de cada obra no mercado.

Serviço
Segunda Queda – Ave Terrena Alves
Preço: R$ 40 (R$ 20 para pessoas trans autodeclaradas)
82 páginas
Contracapa: Paloma Franca Amorim
Revisão: Danilo Horã
Prefácio e Orelha: Erika Hilton
Editora Kazuá

Ficha Técnica
Direção: Claudia Schapira
Atuação: Ave Terrena e Veronica Valenttino
Composições e música em cena: Gabriel Barbosa
Vídeos: Camila Marquez
Iluminação: Fly Goes

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