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Espetáculo dos Satyros pulsa representatividade trans e mostra que patética é a transfobia


Por NLUCON
Foto: André Stefano / Salim Mhanna


Quantas pessoas trans fazem parte de sua vida? O que você sabe sobre essa população? Quantas artistas trans e travestis você conhece? Quantas delas estão na mídia hegemônica regularmente? Quantas vezes já escutou a justificativa de que não há mais artistas trans trabalhando ou naquele papel, porque elas não são qualificadas o suficiente?

A companhia Os Satyros traz no espetáculo Cabaret Transperipatético, encenado no teatro da companhia na Praça Roosevelt em São Paulo, algumas das respostas, provocações e também aborda a visibilidade da temática com representatividade trans. Trata-se de um olhar manifesto, um grito engasgado contra o conservadorismo e a fundamental presença física de oito artistas não-cis (travestis, homens e mulheres trans, intersexo e agênero).

De maneira sensível, crítica e humorada, a peça dirigida pelo artista cisgênero Rodolfo García Vázquez discute as vivências de pessoas que não se encaixaram no padrão cisheternormativo e foram em busca das suas verdadeiras identidades. O trabalho envolveu quatro meses de muita pesquisa, troca e diálogo, mostrando que ainda que haja uma temática em comum, a transgeneridade, as histórias, os caminhos e as performances são plurais, únicas e muito ricas.

O espetáculo inicia com um tradicional show de talentos de travestis e mulheres trans. Guttervil - artista que se define agênero - encarna um apresentador de TV, ácido, debochado e provocativo. Com a presença de três pessoas da plateia que vivem jurados, ele aproveita do espaço dado às artistas trans, Sofia Riccardi, Luh Maza, Fernanda Kawani e Daniela Funez, para fazer piadas, apontar características atribuídas ao masculino e dar um show de transfobia. Qualquer semelhança com programas de TV brasileiros não é mera coincidência.

Logo depois, cada um dos, das e des artistas revelam suas trajetórias particulares aliadas também às experiências de outras, traçando um perfil diversificado de vivências, reflexões e atuações nas esquetes. Um áudio na voz de Phedra de Córdoba, atriz transexual e diva dos Satyros que morreu no último ano, inicia a cena falando sobre o espelho. A memória da artista, apontada como um dos maiores ícones trans do teatro, dá boas-vindas a essa geração de estrelas não-cis.

Então, o ator Gabriel Lodi performa em frente ao espelho, envolve o público com sua habilidade corporal, discurso preciso e olhar marcante. De terno e gravata, ele reflete sobre a autoimagem e, ao fim, se desnuda mostrando o corpo do homem que é. Simplesmente tocante.

Gabriel Lodi em cena (foto de André Stefano)


DESCOBERTAS, DESCONSTRUÇÕES E CONSTRUÇÕES

João Henrique Machado, Léo Perissatto e Gabriel discorrem sobre os processos de tocar e vivenciar a masculinidade. Mas não se trata de um discurso raso de homens que sempre tiveram privilégios e que agora resolveram pensar sobre eles. As reflexões veem de homens que foram designados mulheres ao nascer, conhecem de perto os efeitos do machismo e refletem sobre o processo de se reconhecerem enquanto homens.

No bate-papo, eles apontam para as pressões e bobagens que escutam para se tornarem reprodutores de um sistema opressor e serem reconhecidos como parte dele. Léo destaca a ausência da hormonioterapia, que muitas vezes o deslegitima. Em outros momentos, destacam a ausência do falo. Eles falam sobre a construção dos próprios arquétipos de ser homem e da importância de ressignificar a masculinidade nos tempos de hoje. A cena é bastante aplaudida.

Outros momentos emocionantes ocorrem quando Sofia Riccardi fala em uma carta para a mãe sobre a descoberta de ser uma mulher trans intersexual. Ou quando Léo narra os duros processos para se entender homem dentro de uma escola de freiras. As vivências de um corpo negro e trans dentro de uma sociedade transfóbica e racista também é abordada por João.

Luh Maza tem a sua primeira valsa com o pai, representado por Lodi, narrando enquanto dança todas as violações que sofreu dele no seio familiar. É profundo, lúdico e tocante. Aliás, Luh é conhecida no meio teatral como diretora (dentre elas, a premiada Kiwi) e chegou a revelar ser uma mulher trans durante os ensaios. Disse que só agora conseguiu ir finalmente para o palco. "O teatro tomou conta de mim como minha família não pode", declara ela em cena. 

Sofia Riccardi é destaque em Cabaret Transperipatético (Foto: Salim Mhanna)

João, Gabriel e Léo (Foto: Salim Mhanna)

Luh Maza: "o teatro tomou conta de mim" (Foto: Salim Mhanna)

AMORES E ENCONTROS

Em algumas esquetes, as histórias chegam a se cruzar, mostrando acasos ou predestinações simbólicas da vida. Guttervil, por exemplo, relata como se descobriu uma pessoa agênero, trazendo em seu discurso pessoal como se dá não se identificar nem como homem ou mulher e ainda assim, numa sociedade que cobra uma definição binária, ser uma pessoa legítima. A história ganha outras cores e nuances ao mostrar a relação com a também atriz Fernanda Kawani.

Eles se conheceram em um bar, num momento em que Fernanda trabalhava como profissional do sexo. No palco, ela narra a realidade da profissão, sem discursos prontos, mas com a realidade nua e crua. Então, fala de como conheceu Guttervil, roubou um beijo e mudou a vida de ambos. As trocas de amor esbanjam sentimentos e fez muita gente suspirar.

Por sua vez, Daniela Funez aborda os afetos, dúvidas e questionamentos envolvendo uma mulher trans que é lésbica - ou como ela diz, a facha e sapatão do rolê. Com a forma de um corpo rabiscada na parede, mostra de maneira professoral os pontos em que as pessoas podem ou não tocar em seu corpo, salientando o tabu desnecessário para se relacionar com uma pessoa trans e as dicas de cunho meramente pessoal. 

Muita gente se divertiu e de quebra aprendeu que orientação sexual (como se orienta nosso desejo afetivo/sexual) é diferente de identidade de gênero (como nos percebemos e nos identificamos no mundo diante dos arquétipos de gênero estabelecidos).

Daniela Funez (Foto: Salim Mhanna)

Guttervil (Foto: Salim Mhanna)

Fernanda Kawani(Foto: Salim Mhanna)

PERFORMANCE

Entre uma cena e outra, os artistas fazem performances que o tempo todo evocam o público a refletir a transfobia, o gênero, os privilégios e os direitos ceifados de pessoas que são desumanizadas pela sociedade. Utilizam de cadeiras, iluminações e performances corporais. Sofia chega a fazer uma paródia de Vai Malandra, com "Sai Machista", um dos momentos marcantes do espetáculo.

Ao fim, Guttervil encarna o típico discurso da família tradicional brasileira, que aplaude um casal hétero se beijando, justifica quando mais uma mulher entra na relação, pondera quando dois casais héteros fazem a troca de casal, mas fica chocado quando vê relações gays, lésbicas ou plurais. A cena fica hilária quando Guttervil, no meio de sua indignação, surpreende-se ao ver a própria amada no meio da suruba: "Fernanda?!?". Todos riem.

Na pré-estreia, na qual nós do NLUCON estivemos presentes graças ao convite do ator João Henrique Machado, o diretor Rodolfo chegou a se emocionar e a dizer que aprendeu muito com todas, todos e todes durante o processo. Os aplausos foram calorosos. Certamente, diante de tantas emoções, provocações e aprendizados, o público também sai transformado, com outras possibilidades de respostas e novos questionamentos. Uma peça urgente num momento de resistência à representatividade trans.

Elenco de Cabaret Transperipatético (Foto: André Stefano)

Vale dizer que Cabaret Transperipatético é a segunda parte da Trilogia do Antipatriarcado – composta por “Pink Star” (2017) e a remontagem de “Transex” (originalmente montada em 2004, a primeira peça da cia. a abordar a transexualidade tem remontagem prevista para junho deste ano). A previsão é que a obra seja encenada de sexta a domingo, até o dia 31 de julho na Estação Satyros, praça Roosevelt, São Paulo. Os ingressos custam R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia) e R$ 5 para moradores da Roosevelt. Para pessoas trans e não-binárias, a entrada é livre.

Serviço
Espetáculo: Cabaret Transperipatético
Duração: 75 min.
Local: Estação Satyros – Praça Roosevelt, 134 – tel. 3258 6345
Dias: Sextas, 21h | sábados e domingos, 19h30
Temporada: 4/5 a 31/07
Ingresso: R$20,00 (inteira) | R$10,00 (meia) | R$ 5,00 (morador da Praça Roosevelt) |Pessoas não binárias, transexuais, travestis e agêneros entram de graça.
Telefones para reservas: 3258 6345 / 3231 1954
Recomendação: 18 anos

Ficha Técnica
Direção: Rodolfo García Vázquez
Assistência de direção: Felipe Moretti
Dramaturgia: Coletiva
Supervisão dramatúrgica: Luh Maza, Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez
Coordenação de Produção: Daniela Machado
Cenografia: Dan Oliveira e Rafael Santos
Cenotecnia: Alexandre Barbosa
Design: Henrique Mello
Operação de luz: Dennys Gonçalves e Axl Cunha
Operação de som: Alexandre Apolinário e Laysa Alencar
Figurinista: Lenin Cattai, Márcia Daylin (figurinista Cena Auditório)
Assistência de Figurino: Cinthia Cardoso
Fotografia: Laysa Alencar e Salim Mhanna
Sonoplastia: Rodolfo García Vázquez
Costureira: Lenin Cattai
Produção executiva: Israel Silva
Administração: Lucas Allmeida
Realização: Cia. De Teatro Os Satyros
Assessoria de Imprensa: Bruna Buzatto e Diego Ribeiro

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