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Após censura de Crivella, peça com atriz travesti Renata Carvalho resiste e será apresentada em novo espaço no Rio


Por Neto Lucon
Foto: João Kawasaki


O espetáculo teatral "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu", encenado pela atriz travesti Renata Carvalho, foi censurado pela terceira vez no país. Desta vez, no Rio de Janeiro a pedido do próprio prefeito Marcelo Crivella, que proibiu o evento Mostra Corpos Visíveis, que aconteceria de 8 a 10 de junho no Parque Madureira.

Para o prefeito, que não assistiu ao espetáculo dirigido e traduzido por Natalia Mallo e nem teve acesso ao texto de Jo Clifford, o simples fato de trazer uma atriz travesti no papel principal seria uma "ofensa à religião" e que se "deve respeitar a consciência e a religião das pessoas".

Já para a atriz, o desrespeito, a intolerância e a transfobia aparecem por meio desta censura, de modo que todas as demais pessoas podem interpretar Jesus, ser e ter a sua imagem e semelhança, menos uma travesti. Ela destaca que a peça fala sobre amor, respeito e acolhimento, e não ofende símbolos, Jesus e nem a religião.

"O que é ofensivo? Jesus ser comparado a uma travesti? O que causa tanto ódio? Essa construção social da identidade travesti. Esse corpo travesti que é mais velho que eu, que carrega muitos estigmas e lendas. O que ofende é o que essas pessoas conseguiram em cima do corpo travesti. O que ofende essa pessoas é a construção da travesti que elas têm", afirma ao NLUCON.

Renata soube da terceira censura quando voltava de uma apresentação aplaudidíssima em Recife, durante o festival Trema, no Teatro Apolo. Ela afirma não se surpreender. "Enquanto tivermos o corpo travesti criminalizado, inapropriado, sexualizado, hostilizado, esse trabalho sofrerá represálias do fundamentalismo religioso e se preconceito às nossas vivências", declara.

RESISTÊNCIA

Na terça-feira (05), cerca de 40 pessoas, dentre elas artistas, militantes e apoiadores da causa LGBTQI+, organizaram um protesto no Méier contra o cancelamento da peça. O prefeito chegou a ser vaiado pela população.

Apesar da censura, o espetáculo foi remarcado e será apresentado neste sábado (09), às 19h, na Fundição Progresso (Rua dos Arcos -24 - Lapa, Rio de Janeiro). O novo espaço foi disponibilizado após a decisão, pois a proibição vale apenas para espaços públicos, não provados.

"Desde já quero agradecer o espaço, toda produção da mostra Corpos Visíveis e todes que acompanharam e estiveram juntes. Somos muito gratas. E temos certeza que só juntes é que somos mais fortes", declara Renata. 


A atriz declara que para transformar o cenário de transfobia é preciso humanizar e naturalizar as presenças, os corpos, as vivências e as identidades trans. "E isso só alcançaremos com representatividade, pois ela coloca nossos corpos nos espaços. Representatividade é tão importante por isso", afirmou.

TERCEIRA CENSURA

As outras censuras sobre "Rainha do Céu" ocorreram por meio judicial em Jundiaí, município de São Paulo, e Salvador, Bahia. As justificativas são semelhantes: de que o espetáculo desrespeita a religião pelo fato de ser interpretado por uma travesti.

Em Jundiaí, apesar da peça ter sido proibida na ocasião, posteriormente a Justiça derrubou a decisão. De acordo com o desembargador Mônico da Silva, a decisão de proibir a peça "censurou a arte e violou a Constituição Federal".

Ele disse ainda que a censura "feriu de morte a atividade artística da atriz transgênera (Renata Carvalho) que interpreta o personagem bíblico". E que a "peça tem caráter ficcional e objetiva fomentar o debate sobre os transgêneros. Ou seja, não tem a intenção de ultrajar a Fé Cristã".

Vale dizer que nas redes sociais, a peça tem como questionamento: "E se Jesus voltasse na pele de uma travesti?". A repercussão responde.

Confira entrevista com Renata Carvalho: 


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