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As 3 Uiaras: Espetáculo escrito e encenado por artistas trans é sucesso absoluto em SP City


Por Neto Lucon
Foto: Renato Mangolin

O espetáculo As 3 Uiaras de SP City, que estreou no dia 18 de maio, encerra a temporada nesse domingo (10) com sucesso de público na IV Mostra de Dramaturgia, no Espaço Cênico Ademar Guerra, no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000).

A obra, que conta com texto da dramaturga Ave Terrena Alves e atuação das artistas Danna Lisboa e Verônica Valenttino – ou seja, visibilidade, representatividade e talento trans em massa! - teve sessão extra no sábado (09) e está com ingressos esgotados (capacidade para 82 lugares) para a seção deste domingo às 20h.

“As 3 Uiaras” aborda a realidade marcada por estigmas, preconceitos e violências que as travestis e mulheres trans sofrem dos anos 80 até os dias atuais. Elas registram e pontuam momentos históricos, mas também trazem elementos da atualidade, transitando entre a narração do passado e cenas do presente, realidade e ficção, numa dramaturgia transtemporal.

No espetáculo, Miella (Danna) e Cínthia (Verônica) moram em São Paulo e trabalham como cabeleireiras, profissionais do sexo e artistas performáticas em clubes noturnos. Quando se preparam para montar uma apresentação musical, se deparam com a Operação Rondão, comandada pelo delegado Rochetti, que decide prender e agredir travestis e mulheres trans. Elas também trazem a memória da Operação Tarântula, que nos anos 80 prendeu 300 travestis e mulheres trans em São Paulo com a justificativa de “combater a aids”. Diversas violações são documentadas.

Segundo a dramaturga, o sucesso do espetáculo vem do interesse das pessoas por uma memória que fundou a realidade atual, mas que está apagada da história oficial. “O teatro ainda é um meio muito elitizado e normativo em vários aspectos, e uma das minhas preocupações era com quem estaríamos dialogando no público. Fico feliz que tenha surgido um interesse grande das pessoas trans em geral, e me dá também um alívio saber que o teatro não é essencialmente um meio jesuítico de formas rígidas, de ritos caretas que silenciam o público para emitir verdade. O que interessa é que as pessoas se apropriem dos meios de produções culturais”, afirma ao NLUCON.

Há também muita música, uma vez que Danna e Verônica também tem carreira como cantoras e que há músicos em cena tocando ao vivo. Ave Terrena tem quatro canções de sua autoria, em conjunto com a equipe musical, que também executa a música em cena. Felipe PagliatoGabriel Barbosa e Victória dos Santos são os responsáveis pela direção musical do espetáculo. Segundo o diretor Diego Moschkovich, a inspiração vem das montagens de atrações do cineasta soviético Serguei Eisentein e a atmosfera das boates paulistanas dos anos 80 com shows das travestis. “A cada cena temos um novo número”, explica.

O elenco é formado ainda pelos atores Diego ChilioMaria Emília Faganello e Sophia Castellano.


PESQUISA E POTÊNCIA

Segundo Ave, a peça tem uma pesquisa densa sobre a realidade das travestis desde os anos 80, surgindo durante o Laboratório de Técnica Dramática – LABTD, do qual é integrante, sobre o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), publicado em 2014. Teve como base também o livro Ditadura e Homossexualidades, organizado por James N. Green e Renan Quinalha, edições do jornal Lampião da Esquina e principalmente diálogo com militantes transfeministas, bem como Neon Cunha e Erika Hilton.

“É muito importante destacar a presença e o envolvimento da (designer, artista plástica e militante feminista trans) Neon Cunha nesse projeto. Nós caminhamos no Arouche, República, Luz e fizemos reconstituições afetiva e memorialística da Operação Tarântula. Ela revisou a peça comigo e escreveu o texto de abertura da brochura, que foi publicada. A peça é dedicada a ela e sem a minha parceria com ela, essa peça nem existiria”, declarou. Aliás, Ave afirma que algo que mexeu com ela foi reconstruir os fios da memória em conjunto com pessoas trans e cisgêneras, sentindo a potência da interseccionalidade.

O diretor afirma que trabalhou com as e os artistas uma interpretação humanizada e que representasse uma relação autêntica com o que estava sendo exposto. As vivências trans das diversas artistas na história também são levadas à cena, trazendo muitas mensagens e reflexões por meio do corpo físico de quem não se encaixa na cisnormatividade imposta. Tanto que, segundo a dramaturga, Miella e Cínthia devem sempre ser interpretadas por atrizes e mulheres trans trans até 2047, caso o texto seja remontado.

Com sucesso de público, muita gente está torcendo para que o espetáculo volte logo. “Nós queremos fazer a peça todas as vezes que for possível. Não temos perspectiva concreta de como retornar em cartaz nem onde. Fazer teatro é muito difícil, a nossa equipe tem pessoas maravilhosas e todes precisam receber dignamente pela força de trabalho. Sempre que acaba uma temporada dá um desespero. Não sabemos como fazer para continuar. As nossas vulnerabilidades da vida cotidiana se somam a essa precariedade da profissão e estamos quebrando a cabeça para descobrir a maneira de seguir com a peça”.

Ave Terrena Alves, dramaturga do espetáculo


Ave afirma que a estrutura até então ocorreu por meio do edital de Dramaturgia do CCSP, que acaba de finalizar. “O sucesso é muito fugaz, num dia todo mundo acha que você está poderosa e rica, mas isso é uma ilusão incentivada pelo CIStema para baixar a nossa guarda. Somos simplesmente trabalhadoras da cultura, batalhando todos os dias para garantir nossos mínimos direitos: por exemplo o próprio trabalho. Vontade, talento, compromisso e produtividade não faltam. Não podemos deixar essa potência morrer aqui”, finaliza.

As 3 Uiaras em SP City
CENTRO CULTURAL SÃO PAULO – Espaço Cênico Ademar Guerra – Rua Vergueiro, 1000 –Estação de metrô Vergueiro. Telefone (11) 3397-4002. Bilheteria – de terça a sábado, das 13h às 21h30; e domingos, das 13h às 20h30. Ingressos vendidos online pela www.ingressorapido.com.br ou pelo telefone 4003-1212. Capacidade – 82 lugares. Acesso para deficientes físicos.
www.centrocultural.sp.gov.br

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