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Christian Lorenzzo escreve carta sobre namorada trans que foi encontrada morta em 2017


Por NLUCON

O Dia dos Namorados, que ocorreu nesta terça-feira (12), motivou Christian Lorenzzo Karavla a escrever uma carta sobre Ana Carolina Nascimento, sua namorada que foi encontrada morta no dia 5 de setembro de 2017. Tanto ele quanto Ana são pessoas trans.

No relato, ele conta quando conheceu a amada, os adjetivos que marcaram a vivência dela, momentos de felicidade que passaram juntos, até a triste notícia de sua morte. Para ele, ser informado que Ana Carolina havia morrido foi como “ter a própria vida roubada”.

Ana era universitária, tinha 26 anos e foi encontrada morta em baixo de um carro no bairro Santa Angelina, em Araraquara, município de São Paulo. A causa da morte, segundo a polícia, foi um acidente motivado por uma falha no freio de mão. Porém, no país que mais mata pessoas trans e travestis, amigos e familiares questionam a versão, sem que houvesse maiores investigações.

Dez meses depois, a dor continua. Christian remexe nos sentimentos, escreve para Ana e faz um apelo às pessoas, tentando transformar o que ficou em mensagem: “Não tenham medo de amar e demonstrar seu amor. Valorize seu parceiro, sua parceira todos os dias da sua vida, porque hoje pode ser o último”. Deixamos o nosso forte abraço e sentimento ao Christian, amigos e familiares de Ana.

Confira o texto na íntegra e com exclusividade:

“Eu não esperava que fosse dar certo, sabe? A Ana morava no interior de São Paulo, na cidade de Araraquara, há exatas quatro horas de viagem. E eu? Na periferia de Osasco... Nós conversávamos por horas todos os dias, nos despedíamos com um boa noite, durma bem minha princesa...

Eu nem esperava que ela fosse bater à minha porta certa manhã... Mas ela veio... Não esperava que ela fosse se tornar a mulher que eu mais amei na vida... Aquela que se tornaria totalmente insubstituível... Achei que seria somente um daqueles amores de verão: vem, bate forte e some com a mesma intensidade... Mas não. Ela ficou, ela marcou...

Ana era doce, meiga, inteligente e dedicada. Ela servia de despertador para me arrancar da cama quando eu precisava acordar cedo! Acordava e me ligava até eu ouvir essa desgraça de celular...
Certa vez eu olhei para ela e disse: casa comigo? Acho que foi o momento mais feliz da minha vida quando ela disse “sim”. Se eu tivesse grana eu teria contratado o carro da pamonha para anunciar nosso casório para a vizinhança. Sério!

Todos os dias ela saia de casa no mesmo horário para ir para a universidade e voltava mais ou menos no mesmo horário. Era caseira, não era de sair (por mais que eu insistisse para que ela saísse com os amigos e fosse curtir a vida). Foi dia 5 de setembro. Me lembro que ela havia dito que voltaria mais cedo da faculdade e que me chamaria quando chegasse.

Às 21:00 recebo uma ligação da casa dela, informando que ela havia falecido... Não sei dizer com palavras o que senti. É como se minha vida tivesse sido roubada... Com a ajuda do antigo Coordenador de Políticas LGBT da minha cidade eu consegui dar adeus ao amor da minha vida e estava num ônibus para Araraquara poucas horas depois.

É uma história de amor sem final feliz, mas quero deixar para vocês uma lição que tirei disso tudo: não tenham medo de amar e demonstrar seu amor. Valorize seu parceiro, sua parceira todos os dias da sua vida, porque hoje pode ser o último. Vivemos no país que mais mata travestis e transexuais no mundo, não sabemos se vamos voltar vivos ou não para casa... A Ana Carolina Nascimento foi mais uma nas estatísticas, mas foi a dona do meu coração e segue sendo.

Ana Carolina presente”.

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